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Que golpe.

por PR, em 12.12.18

Em Fevereiro de 1990, toda a minha vida mudou. Comecei a fazer rádio, no 7º andar da Torre 3 das Amoreiras, no CMR. E foi quando conheci o Luis Costa. Não podia imaginar que, nos anos seguintes, ele ia ser uma pessoa tão determinante, tão influente na construção deste Pedro que sou hoje. No rádio e na vida.
Foi tantas vezes irmão mais velho como foi pai. 
Foi desta dimensão, a nossa amizade. 
A sua característica bondade generosa, o seu humor, a sua frontalidade e honestidade, mas também com a sua sensibilidade para perceber quando era preciso só ouvir ou desfazer o drama com uma piadola; o Luis foi um exemplo de carácter, uma escola de ética e de valores que me acompanharão pela vida fora.
A noticia da sua morte, hoje, foi, seguramente, dos mais duros golpes que recebi na vida. E olhem que já tenho uma boa conta de alguns outros que sofri. 
O Costa. Não me caiu a ficha ainda, completamente. Andei o dia todo entre a tentativa de me equilibrar e não desabar, meio zombie, como se fica quando se recebe uma notícia destas. Sei que esta dor nunca mais vai desaparecer. Agora está a arder, em chaga. Depois vai abrandar, por vezes até vou esquecer-me que ela existe, distraído pelo bom que a vida ainda vai trazer com certeza. Mas, volta e meia, ela voltará, conforme as memórias a despertem, aqui e ali. São tantas.
As conversas longas sobre a vida, a rádio, a música, o cinema, o futebol. Os almoços no Buzina, no Hélio, ou antes, naquela varanda de restaurantes nas Amoreiras. 
As futeboladas de sábado de manhã, em que o seu humor era o maior craque, contagiando todos. Os almoços em Ribamar, naquele restaurante onde serviam o arroz de marisco descascado, regado com João Pires branco gelado. Os 6-3 que vi em casa dele, ele sportinguista ferrenho, mas com tudo a acabar numa jantarada sem sombra nenhuma, que aquilo era uma amizade que estava para lá de derbis, diferenças e, vejo agora, para lá da distância e da cada vez mais larga intermitência nos nossos encontros. A última vez que estivemos juntos foi no Hospital da Cuf, tu em recuperação da delicada e impressionante operação. Guardo, para sempre, o tom da conversa, o som do teu riso, aquele sorriso quando te levei o vinil dos AC/DC,...pergunto-me se chegaste a ouvir. Ou se o disco ficou, como tantas conversas que eu ainda queria ter tido contigo, quieto, em silêncio sem remédio. 
O Costa foi um homem muito grande. Eu tive a sorte de o ter como amigo, e vou recordar-lo sempre com grande emoção, enorme respeito, admiração e carinho. Queria que fossemos à máquina do café, ao pé do estúdio de Monsanto, naquele CMR de noites longas e difíceis, e espreitássemos a temperatura do painel da Phillips, lá em baixo na estrada, para poder actualizar a informação no topo da hora.
Voltar a ouvir a tua voz: "São três da manhã, Lisboa não sei quantos graus", o jingle da informação, com a etiqueta "sem nome" na cassete com sincronismo, e tu fazias de Rui Pêgo e punhas o meu nome em som, para eu desatar a ler as noticias que tinha preparado.
Ou nós a rirmos, quando me contaste que ias ter um programa de fim de semana e o nome era o incrível "Rosário, Rosalinda, se fores à praia, leva o teu xaile". 
Meu querido amigo, nem imaginas o estado em que nos deixas a todos. Este puto aqui está desfeito. As lágrimas que me correm são só a ponta deste iceberg de profunda tristeza, misturada com a revolta de não termos estado mais vezes juntos, não teres chegado a conhecer as minhas filhas mais novas, não termos estado mais ali um para o outro como antigamente, Porque sei que, ainda assim, estivemos sempre ligados. Só nós sabemos, companheiro. 
O Costa foi das pessoas mais importantes da minha vida, e só para o ter conhecido já teria valido a pena ter por cá passado. 
Descansa, meu amigo. 
Não sei porquê mas acredito que um dia voltaremos a encontrar-nos. 
Oxalá

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