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No fundo, é bastante simples. Todos vamos morrer, um dia. Todos. Ter esta noção presente, ajuda a focar. Não é ter uma sombra, como uma letra de fado, sempre ali a pairar, fatalista. É só ter a tranquila noção de que isto de viver é uma coisa muito passageira, e que é frágil, muito frágil. 

Perdemos muito tempo. Com coisas menores, com pressa. Pressa para quê? 

A nossa vida é, na verdade, um micro mundo, onde os pontos cardeais são as pessoas que nos são importantes. Tentamos não ter de ter tantas saudades delas, quando não estão por perto, tentamos que elas sintam que gostamos mesmo delas, tentamos uma organização básica dos nossos dias, que faça com que as nossas rotinas nos criem uma zona de conforto. Que saibamos com quem contamos, que tenhamos horários padrão, que haja um fio condutor qualquer que faça com que não percamos o pé.

Que os nossos fracassos nos ajudem, nunca perdendo aquela força que vem da ideia de que o que não nos correu bem não nos pode parar e que há que aprender e tentar melhorar, com todo o empenho, sempre. E procurar ajuda, se for preciso. Acreditar nas pessoas e no seu gostar de nós. Exercer o nosso gostar das nossas pessoas, sem reservas é uma saudável tentativa de vida boa. 

E quando nos fazem mal, quando somos injustiçados, mal tratados, quando abusam da nossa boa vontade, ou da nossa ingenuidade, é bom ter presente que toda a maldade é fútil. Até porque, um dia, morreremos. Não há volta a dar.

Se fosse hoje, ou amanhã, ou depois? Estaríamos plenamente satisfeitos com o ponto em que estávamos no nosso ultimo segundo? Ou diríamos: se eu soubesse...

Li, há dias, uma reportagem tocante, no Público, sobre os pais de uma rapariga que fazia parte daquele grupo de jovens que desapareceu na praia do Meco, há uns tempos. Impressionou-me aquela dor incomensurável, e dei comigo a pensar que a vida é realmente frágil, é uma folha gasta pelo tempo, que pode rasgar e desfazer-se com um sopro súbito. E que, por vezes, nos distraímos com coisas sem valor, e nos deixamos levar por vertigens que não deviam ter tanto poder sobre nós. Penso nisto e penso também nestes dias de loucura da economia e dos políticos que vivem numa bolha, de relatórios, previsões macro económicas, "indicadores" e depois há cada vez mais gente sem trabalho, sem comida, sem saúde. Todos vamos morrer um dia. 

Acho que, se toda a gente pensasse nesta verdade simples, mais vezes, as coisas melhoravam. De repente, olha-se para a vida com uma outra perspectiva, mas serena. E agarramos melhor os dias, tão preciosos e irrepetíveis, em que nos é dado o privilégio de estarmos vivos. 

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10 comentários

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De amora a 21.01.2014 às 09:50

façamos com que os nossos dias sejam úteis, sempre :)
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De Filipa a 21.01.2014 às 10:05

Sempre tão sábio e certo nas palavras que usas...
A vida é mesmo efémera.
Hoje vou agarrar o meu dia...
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De Sónia Antunes a 21.01.2014 às 13:32

Um bom texto para ler depois de ter sido despedida ontem..não fiquei nada bem mas vou aproveitar tudo de bom que tenho para superar esta fase menos boa. Beijinhos
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De Lolita a 21.01.2014 às 22:02

Muito diretas e sábias estas palavras. No trabalho em que estou lido bastante com o público e, por vezes, acontecem coisas como má educação entre as pessoas e para com os trabalhadores, faltas de respeito porque o cliente pensa que tem sempre razão, entre outras, que me fazem ver que as pessoas estão cada vez mais concentradas em si próprias e que só olham para o seu umbigo. Seria tudo mais simples se todos se ajudassem ou que pelo menos fossem mais compreensivos uns com os outros. Não vale a pena estarmos de mal com o mundo e chatearmo-nos por tudo e por nada. A vida é demasiado curta para isso.
Gostei da frase: 'toda a maldade é fútil'. Não me vou esquecer disso.
Beijinhos
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De Joao Leitao a 22.01.2014 às 15:55

Pensamos nisso quando alguém perto de nós "se vai" de repente, sem explicação. Creio que será também por isso que muitos se "comem" uns aos outros para ter mais dinheiro e poder. Nao será só para terem uma boa vida, mas também para poderem deixar as suas familias economicamente tranquilas, no caso de "se irem" subitamente.
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De Paula a 23.01.2014 às 13:47

No dia dessa notícia adormeci a pensar nela, não me saía da cabeça aquela imagem de uma onda enorme e do tamanho tão pequeno das pessoas ao pé dela. Acordei com vontade de abraçar forte as pessoas de quem gosto e com a certeza de que o importante, quando cada dia terminar (ou cada vida) é ter sabido fazer-lhes sentir o que realmente importa. É um exercício para a vida, que se vai aprendendo, mais fácil para uns que para outros, nuns dias do que noutros, mas se calhar é mesmo o mais importante que vimos cá fazer.
Mais uma vez, tens toda a razão e sabes como dizê-lo.
Beijo grande. :)
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De Anónimo a 25.01.2014 às 22:12

Se soubesses que amanha se apagava a tua luz, mudavas alguma coisa na tua vida, pedias um tempinho para dizer uma ultima palavra a alguma pessoa, para fazer as pazes, para mostrar esse gostar a alguém especial, ou consegues ter tudo certo e coerente com o que escreves? Estas de bem com todos que são importantes para ti?
Eu não consigo e gostaria muito...
Se num sopro inesperado, eu morrer, fico com pessoas por "resolver"...por abraçar novamente. Ficam pessoas por olhar nos olhos, novamente.
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De blimunda sete luas a 26.01.2014 às 19:40

Este teu último parágrafo é bastante heideggeriano. :-) Beijinhos. :-)
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De AnaJoão a 31.01.2014 às 16:51

Vim cá ter através do blogue "Às nove no meu blogue" e como estou a gostar do que vou lendo..Sem dúvida que há situações que nos dão um "abanão" mesmo quando não têm a ver connosco directamente. O caso destes jovens foi uma delas..É inevitável não nos por a pensar e a questionar se estamos a dar o devido valor ao que devemos e se pelo contrário não estamos a dar valor a mais ao que não devemos..

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De Fernando Ferreira a 01.04.2014 às 23:13

Obrigado por este texto.

E por me acordares há mais de 15 anos.

Sol firme e céu azul, sempre!

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