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Da música.

por PR, em 17.04.20

Pediram-me para destacar alguns discos que me marcaram. Saiu isto. Ficaram de fora mais uns 50, mas, um dia volto a isto.

Alchemy

Dire Straits

Edição original: 1984

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No verão de 1983, uma banda comandada por um virtuoso da guitarra, com uma fita na testa à John McEnroe apresentou-se para duas noites de desvario no lendário Hammersmith Apollo, em Londres. Menos de um ano depois, um amigo meu, que morava num cantinho da Praceta ao lado da minha, e que era louco por livros do Lucky Luke, do Spirou e por música, pôs a tocar, na aparelhagem Grundig do pai dele, uma guitarrada de um tema chamado Sultans of Swing.

“Olha aqui, o que este gajo faz com a guitarra”, dizia o Mário, fascinado. E nós ali a ouvir, pela primeira vez, o hoje mítico duplo álbum dos Dire Straits, que tinha essa malha mas também Private Investigations, Tunnel of Love ou Romeo & Julliet, entre outros hinos.

O disco atingiu-me com o poder de uma revelação que nos é feita e que determina um antes e um depois. Volto muitas vezes a este disco. Lembro-me que, na altura, eu, com 13 anos, viria a auto designar-me verdadeiro fã dos Dire Straits, porque não tinha descoberto esta banda com a manada que veio atrás do Brothers in Arms (que aliás adoro). Mas era aquela vã fanfarronice de miúdo que depois, pela vida fora, encontrei muitas vezes em gente crescida, nomeadamente dentro deste universo da música.

Curiosamente, das vezes que vi a banda ao vivo, nunca me entusiasmaram, ficando a léguas da energia deste disco. 

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Getz/Gilberto

Stan Getz e João Gilberto feat. António Carlos Jobim.

Edição original: 1964

 

Ainda dizem que os primeiros dias da semana são os mais difíceis. Aquela 2ª e aquela 3ª feira de Março de 1963 foram primavera antecipada. Sim, este disco seminal foi gravado em dois dias. 

A 18 e 19 de Março de 1963, juntou-se num estúdio em Nova Iorque, uma turma rara, um daqueles elencos de sonho tipo Lennon-McCartney-George-Ringo mas numa latitude sonora completamente diferente. Estes Beatles da bossa nova eram João Gilberto, António Carlos Jobim e o saxofonista de Filadélfia, Stans Getz, mais a voz de água de côco, sombra fresca num dia de calor e caipirinha malandra e sensual de Astrud Gilberto. 

Esta malta insuspeita gravou então um disco que se atravessou na minha vida muito mais tarde, a partir dos anos 90, para ser exato. 

No CMR - Correio da Manhã Rádio - encontrei, certa noite, este álbum. Estava pousado à minha espera, num estúdio de produção, ao fundo do corredor onde estavam os nossos cacifos. 

Pus a tocar. O prato era um Technics e as colunas eram de um poder que eu acho que até as respirações do João Gilberto se ouviam naquele sétimo andar das Amoreiras.

É uma obra tão presente em todas as fases da minha vida, desde então, e em circunstâncias tão diferentes, que se pudesse levar só um disco para uma ilha deserta, acho mesmo que seria este. A elegância dos arranjos, a malandrice meia Baiana meia Carioca nas letras, no tom, no universo que as canções criam, na respiração que trazem. Tudo aqui é superior e eterno, numa simplicidade genial, só ao alcance de artistas que não têm nem sucessores nem sucedâneos. 

A Garota de Ipanema, Desafinado, Corcovado…como nunca mais. Essencial.

  

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Misplaced Childhood 

Marillion

Edição original: 1985

Nunca julgar um livro, ou neste caso, um disco, pela capa. 

Está bem. Mas neste caso, que diabo, tudo começou por aí mesmo. Como viria a perceber depois, quando dei comigo a consumir toda a obra dos Marillion, a questão das capas do ilustrador Mark Wilkinson era parte integrante da mitologia da banda, na fase Fish (a melhor).

Sim, dirão os fãs de Peter Gabriel…no principio era o Genesis. 

Ok, mas eu tinha 14 anos e nunca tinha ouvido Genesis, quando dei com este disco, primeiro com o single Keyleigh, na rádio e, depois, ouvindo de fio a pavio (um disco conceptual, sem intervalos entre as músicas, uau!) este LP, cujas canções sei de cor até hoje. Aqui há uns anos, um razoavelmente decadente Fish apresentou-se, barrigudo e surpreendentemente bonacheirão, num concerto de tributo a este disco, na Aula Magna.

Confesso que chorei.

Este disco é absolutamente fundamental na minha vida. Sou eu a debater-me com a minha adolescência, com a minha vivência em casa, num dia a dia cheio de sombras, sou eu a sonhar com aventuras longe, sou eu a fazer de cantor, na minha sala, de phones do meu pai nos ouvidos, a sonhar. 

Sou um fanático por toda a obra Marillion da fase Fish, e até gosto de algumas coisas posteriores. Mas este disco é o pináculo de uma banda virtuosa e honesta, na forma como se dirige aos fãs, e se mantem no seu rumo, apesar de ventos e marés. Misplaced Childhood está para mim como certos filmes, no sentido em que, se damos com um na televisão, ficamos a ver, por mais vezes que já tenhamos visto antes.

Assim é quando ouço falar francês e me lembro da frase “J’entend ton coeur”.

 

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From Langley park to Memphis 

Prefab Sprout

Edição Original: 1988

 

Durante os meus 30 anos de carreira, tenho lutado contra vários tipos de preconceito. Um deles é o preconceito contra a pop mainstream, que grassa por critica e músicos, desde tempos imemoriais.

Muitos dos temas mais marcantes da minha vida são de uma pop tão pueril como “Clouds across the moon” da Rah Band ou “Souvenir” dos OMD. 

Ou “Robert de Niro’s Waiting” das Bananarama ou “Nó Cego” dos Jáfumega.

E este disco de 1988, dos Prefab Sprout, entra para o altar da minha Pop de devoção. 

Paddy McAloon, génio e louco, é um artesão obsessivo pelo detalhe, na composição de canções pop, numa categoria muito particular; canções que só os ouvidos mais desatentos poderão considerar pop levezinha e, logo, descartável após algumas utilizações.

Nada mais errado, como este disco mostra. As letras espertas, muito para lá daquilo que parece à primeira vista, a elegância dos arranjos (Nightingales ou Hey Manhattan! são exemplos definitivos desta genialidade), a coerência das canções agrupadas num alinhamento de uma dúzia de balas de algodão doce, mas, aqui e ali, com um twist.

Stevie Wonder e Pete Townsend alinham neste disco extraordinário, ao lado de uns Prefab Sprout que vinham de conhecer o estrelato das tabelas de vendas e do Top of the Pops com “When Loves Breaks Down”, do disco anterior, Steve McQueen.

A vida foi madrasta para Paddy McAloon, que sofreu graves problemas de saúde nos últimos anos. Tendo estudado para padre, antes da música o resgatar, a sua relação com o divino atravessa o disco “Jordan the Comeback”, por exemplo (outra obra prima), mas neste From Langley Park… tudo é ironia, bom humor, desprendimento e grandes canções.

I Remember That. 

Para a vida. 

 

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Behaviour
Pet Shop Boys

Edição Original: 1990

 

Acima de tudo, a faixa que abre o disco: o genial Being Boring. Atenção que isto é território sagrado, para mim, na medida em que está num top 3 das canções da minha vida. Um tratado sobre crescimento, medo das etapas que nos aparecem, uma certa nostalgia sempre presente, uma inevitável melancolia.

Sou fã dos Pet Shop Boys desde sempre, e uma das minhas grandes mágoas, enquanto amante de música, é nunca os ter visto ao vivo. A obra deste duo tem algumas canções tão absolutamente extraordinárias que é, para mim, incompreensível, como não é cristalina para toda a gente esta minha certeza: estes tipos são geniais, príncipes da pop com um pé na dança e outro no deboche, mas mantendo a pose, sempre. Neil Tennant é, a meu ver, um mestre das canções pop e, depois de anos a fio a dominar as tabelas de vendas e de airplay, ver os Pet Shop Boys quase como alternativos, acaba por ser uma ironia à altura de canções como “Left to my own devices”, por exemplo. Mas esse já é outro disco.

Este “Behaviour” eu ouvi repetidamente, numa época em que fazia noticiários de madrugada, numa rádio local, em Lisboa. Sozinho, noites a fio na redação, e depois no autocarro e comboio a caminho de casa, com o dia a nascer. Este disco é um Outubro chuvoso, mas épico e solene, aos meus ouvidos, em “My October Symphony”, cabeça encostada à janela, na carruagem quase vazia. 

É uma balada pop à medida de Robbie Williams, mas que só muitos anos mais tarde ele haveria de cantar, “Jealousy”. É “So Hard”, a pop que já vinha de “Introspective” “Actually” e “Please” , os discos anteriores, todos eles excelentes.

Só que este disco tem “Being Boring”. Numa altura em que eu já era um chato, foi importante perceber que isso não é para sempre. Ou antes, é. Mas faz uns intervalos, tal como se explica no título de outra musica deste disco, com ironia: “How can you expect to be taken seriously?”

 

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Na Vida Real

Sérgio Godinho

Edição original: 1986 

 

 

“A Lisboa que Amanhece” estava tocar na TSF, ainda a rádio jornal era pirata. Eu ouvi e fiquei com a frase “Não sei se dura sempre esse teu beijo…”

E, como sempre acontece quando me aparece uma qualquer música que, de alguma maneira, me toca, comecei à procura. Eu andava no 10º ano, no Liceu de Oeiras. Não havia cá internet, nem shazam, nem sitio nenhum onde, num segundo, uma pessoa conseguisse perceber de onde vinha um som novo qualquer que nos chegasse. 

Até então, Sérgio Godinho era, para mim, não mais do que um single que a minha avó Dulce, veterana das festas do Avante, tinha lá em casa, era eu criança: “Hoje é o primeiro dia, do resto da tua vida…

Com este disco, “Na Vida Real”, que finamente comprei, numa das duas lojas de discos que havia no Shopping das Palmeiras, já não me lembro qual, descobri um compositor que haveria que marcar a minha vida para sempre. Uns anos depois, já eu trabalhava na rádio, fui ver um espectáculo dele, no Instituto Franco Português, que deu origem ao disco “Escritor de Canções”, e bebi daquela lírica toda, tão rica. Lembro-me que saí e no dia seguinte comprei bilhete para ver outra vez. 

Toquei-te no ombro, e a marca ficou lá?” Caramba!

“Na Vida Real” começa com uma canção extraordinária e que, das dezenas de vezes em que já vi o Sérgio Godinho ao vivo, nunca tive a sorte de ver cantar: “A Definição do Amor”, e depois vai por aí fora: do remake do “Pode alguém ser quem não é” a “Isto anda tudo ligado”, passando pelo “Carteiro” (Original do Conjunto António Mafra, e aqui com Rui Veloso como parceiro) indo desaguar no genial “Fugitivo”, este disco foi a porta aberta para todo o resto da obra.

E gosto especialmente dele porque, para mim, este disco “nasceu” na Rádio. 

 

 

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Rui Veloso

Rui Veloso

Editado em 1986

 

O disco que era para chamar-se”Os Vês pelos B’s” (ou o contrário, não sei bem), acabou por se chamar, simplesmente, Rui Veloso.

Eu já tinha decorado todas as letras do Ar de Rock, Fora de Moda e Guardador de Margens, quando um amigo me mostrou o disco onde apareceram os Portos: o Covo e o Sentido, Mas o disco é muito mais do que os seus maiores sucessos. Estão aqui canções que ajudaram a criar a lenda da parceria única e irrepetível: Veloso-Tê.

A Origem do Mal, a Valsinha das Medalhas, o Cavaleiro Andante, o Negro do Rádio de Pilhas, a Beirã ou o Champanhe. Um disco em que nenhuma canção é ao lado. É uma colheita em que cada bago de uva é néctar, Desde a primeira vez que ouvi este disco, houve outra canção que eu adorei, e que se chama Directo à Cabeça. Jamais consegui ver o Rui a cantar isto ao vivo, mas acho a letra e o balanço da canção incríveis. Adoro-a e está na minha lista de canções da minha vida. (Mas aí, o Xôr Gaudêncio tem algumas mais) 

Este disco é, pois, a tal dupla no seu melhor, antecipando profícuos anos que viriam depois com o épico Mingos & os Samurais ou o extraordinário, e injustamente sub avaliado, a meu ver, “Auto da Pimenta”.

Este disco é a afirmação de um Rui Veloso maduro e maior. Um disco que acabou por ficar, talvez, um bocadinho na sombra, face ao reluzente brilho e gigantismo do tal Mingos & os Samurais, mas eu continuo a achar que é dos melhores da sua carreira. Para mim, teve um impacto tremendo, que me levou ao Pavilhão do Paço de Arcos em 1986 a ver o Rui Veloso pela primeira vez. O bilhete tinha o logotipo da Longa Vida. 

Concluo hoje, tantos anos depois, que eu sei mais letras de cor de canções dele do que ele. 

Foi com este disco como base que fiz, com uns amigos, num quarto andar da praceia de Nampula, em casa do meu amigo Pedro, teríamos uns 15 ou 16 anos, o meu primeiro programa de rádio, ao qual chamámos, pomposamente, “A Antologia do Som”. 

O que eu dava para deitar as mãos a essa cassete!

 

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Sign O’ The Times

Prince 

Edição de 1987

 

Em casa de uma amiga da adolescência, a Sílvia, o nosso grupo de amigos reunia-se para jogar, ouvir musica, conversar e, em alguns casos mais afortunados, namorar. 

Ora acontece que a Sílvia tinha, e tem, Graças a Deus, um irmão. No quarto desse irmão mais velho, havia algo que, apesar de ser declarado território proibido para nós, me atraia de uma forma irremediável: uma aparelhagem de som incrível e meia dúzia de discos que acabaram por me marcar imenso. Hugo, se estás a ver isto, ficas a saber que foi no teu quarto, sem que tu lá estivesses ou desconfiasses, que ouvi, pela primeira vez, por exemplo, “Introducing the Hard Line, acording to Terence Trent D’Arby” ou “Kick” dos INXS. 

Dois discos que podiam perfeitamente figurar nesta lista, aliás.

Mas também foi ali que dei com uma capa em tons amarelo e laranja, com metade do rosto do enigmático, genial, desconcertante e provocador Prince.

Eu já tinha, em casa, o disco Parade, e adorava o Sometimes It Snows In April, o óbvio Kiss, Girls & Boys ou o minimalista Do U Lie.

Mas “Sign o’ the times” foi uma explosão para os sentidos. Ali havia a festa do Funk, a sexyness do Rock, a malandrice da Pop mais inspirada que jamais ouvira. O meu fascínio pela obra de Sua Majestade, Prince, começa verdadeiramente neste épico duplo LP. 

Vai de U Got the look a Housequake, vai de Starfish & Coffee a Hot Thing. Tudo o que aqui reluz é ouro mesmo. Original, nunca antes feito, e soa como mais nada soa. Tão bem. O balada Slow Love, o revolucionário If I was your Girlfriend, o eletrizante I could never take the place of your man, o confessional The Cross

Este disco não era só música. Não foi só música para mim, isso é certo. Desde a historia do tema titulo e daquilo que ele contava, a tudo o que as letras, a atitude e os caminhos musicais para mim absolutamente revolucionários que ali encontrei…este disco foi um abre olhos. Foi o meu despertar para a consciência da existência de outras maneiras de sexualidade e amor. E para a ideia, que ficou para sempre, de que tudo o que importa é justamente o Amor e não a forma que ele decide tomar.  Ainda há quem não aceite ou entenda o que quer dizer a frase  “a cantiga é uma arma”. Então não é! 

Este disco foi mais do que uma arma, foi uma bomba atómica, em bom, para o jovem Pedro que eu era. Um disco que eu adoro e venero, até hoje.

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Achtung Baby

U2

 

Editado em 1991

 

Vamos esclarecer já isto: eu adorava e adoro ainda hoje, tudo o que já cá estava antes: Rattle & Hum, Joshua Tree, Unforgatable Fire, Under a Blood Red Sky e por aí fora. Mas há um dia em que alguém nos chama a um dos estúdios do CMR - Correio da Manhã Rádio - onde trabalhávamos, e põe a tocar o vinil descaracterizado que tinha acabado de vir da editora, dizendo: já ouviram a nova dos U2?

O centro daquele vinil dizia, escrito à mão: “The Fly”, U2.

Tendo em conta que os U2 já eram a maior banda do mundo, parecia existir pouca possibilidade de sermos surpreendidos. Até aquilo começar a tocar. O que era…aquilo?  O que diabo era…aquilo?

Lembro-me de ter dito, estupidamente, qualquer coisa como “È pá, não curto nada!”

Só que dei comigo, horas depois, a cantarolar, assim do nada…”It’s no secret that the stars are falling from the sky…

Quando chegou o álbum, lembro-me que fui mais cedo para a rádio, fechei-me num estúdio e mergulhei, com o som aos gritos, neste mundo novo e viscoso que nada tinha a ver com Where the Streets Have No Name ou Sunday Bloody Sunday.

Mas tinha uma lascívia e um desencanto que tornava os U2 mais…verdade. Havia ali um desespero de agarrar o que era novo. Uma atitude de provocação que mantinha intacto o instinto mais Rock n Rool possível, mas, ao mesmo tempo, uma voz de Bono que nunca tinha soado assim, uma maquinaria que ia parar às canções mas que, em vez de as destruir, as tornava superiores a tudo o que eles já tinham feito. Ou viriam a fazer, que há momentos na vida que não são mesmo possíveis de repetir ou recriar. 

O que terá dado a estes rapazes naquele duro inverno da escura e gelada Berlim? Que abismos estiveram ali tão, mas tão perto? Que precipícios os chamaram, e que limites tiveram eles de pisar, desafiando o fim, para que saíssem desses tempos de dúvida e angustiada procura, canções tão extraordinárias como One, Until the End of the World, Who’s Gonna Run Your Wild Horses, The Fly ou Misterious Ways?

Tryin To Throw Your Arms around the world, com a coragem de um Acrobat, os U2 eram, enfim e para sempre, Even Better Than The Real Thing. 

Até a capa começava por nos dar uma chapada na cara para acordarmos. Que rostos eram aqueles, que roupas, que óculos. O que teria acontecido aos U2, entre Berlim e Rabat? 

Este disco fez dos U2 imortais. Volto a ele muitas vezes, e é, sem duvida, um dos discos da minha vida. O tal que comecei por “não curtir nada!”

Quantos grandes amores, de toda a vida mesmo, não começam assim…

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Simon & Garfunkel

Live in Central Park.

Editado em 1982

 

Eu nunca tinha tido, nem voltei a ter, diga-se, um cinco a inglês. Mas naquele mágico ano lectivo de 81-82, sucedeu isso mesmo, O ano lectivo acaba connosco a jogar à bola, querendo ser Zico, Sócrates ou Éder, mas o brasuca, que o nosso herói de Paris ainda nem era nascido. 

Nesse ano, dei comigo a perceber que a música tinha realmente muita coisa para me ensinar.e que podia ajudar na escola.

Não sei como foi o processo de decisão, não faço mesmo ideia. Mas sei que, na loja de discos que existia ao lado da loja de comida para fora, de nome Cristabela, que ficava perto da minha casa, na Figueirinha, em Oeiras; eu usei um cheque disco que me deram nos anos, quando fiz 11, e comprei “Simon & Garfunkel ao vivo no Central Park”. 

Um duplo álbum que trazia lá dentro um caderno com fotografias do histórico concerto, que tinha acontecido no mês de Setembro do ano anterior, 1981. E ali estavam as letras todas, que eu li e quis perceber. Com a ajuda de um velhíssimo dicionário inglês-português, que existia lá para casa, nasceu o meu 5 a inglês,

Como não querer perceber bem o que dizia esta dupla em “America” ou “Late in the Evening”? 

The Sound of Silence assustava-me, se o ouvisse à noite e já estivesse tudo escuro. Verdade. 

Bridge Over Troubled Water” era arrebatador, com aquela nota final de Garfunkel a estender-se do Central Park a Brooklyn.  The Boxer” era um filme na minha cabeça, “Mrs Robinson” fazia-me acreditar que quem toca guitarra e canta é, fatalmente, o maior.

A partir deste disco, afeiçoei-me muito ao universo Paul Simon, e “Graceland” esteve mesmo mesmo para entrar nesta lista. Mas decidi ir antes à origem desta fonte. A este duplo álbum, que ainda hoje guardo, Still Crazy After All These Years. 

Numa altura em que o que estava a dar eram os Survivor com “Eye of the Tiger” ou “Don’t You Want me” dos Human League (que aliás adoro) eu andava a ouvir canções que já existiam antes de eu nascer. Isso pode explicar a minha absoluta inépcia com as miúdas. Mas tive cinco a inglês, recordo. 

 

 

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Thriller

Michael Jackson

Editador em 1987

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Como não?

Este disco foi-me oferecido no Natal ou nos anos, por alguém, não sei dizer quem. Tinha uma etiqueta amarela autocolante, na capa, que dizia “Inclui The Girl is Mine, dueto com Paul McCartney”.

Sim, a CBS achou que ia precisar disso para vender melhor o disco, E nada contra essa canção. Mas caramba. O disco estava carregado de mísseis e esse dueto era, em comparação, uma fisga ou, quando muito, uma pistola de fulminantes.

Wanna Be Staryin’ Something (as vezes em que eu, puto de 11 ou 12 anos, cantei baixinho Mamasemamasamamakusa, enquanto tentava fazer o moonwalkin’) , Beat It, Billie Jean e Human Nature são a prova que Michael Jackson, e o produtor Quincy Jones, fizeram aqui um disco sem igual. Foi uma revolução. Que disco incrível, ainda hoje! 

Lembro-me de ter assistido, extasiado, à estreia, na RTP, da versão longa do video clip de “Thriller” e de ter pensado que era a coisa mais moderna que jamais tinha visto, que realismo, que onda, apetece sair para a rua e dançar. 

A decadência da figura Michael Jackson impressionou-me muito. Sou muito muito fã, igualmente, de “Off the Wall”, “Bad” e “Dangerous”, acho que ele foi um artista impar, de um talento superior. 

E este foi o seu momento mais alto. Na minha vida, foi e é um disco incontornável. E nunca teria mergulhado de cabeça no disco que veio a seguir, o estonteante Bad, em 1987, se não tivesse conhecido este, antes. 

 

Heróis do Mar

Heróis do Mar 

Editado em 1988

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Poderá provocar espanto, eu ter uma ligação tão forte aquele que muita gente considera o mais fraco disco dos icónicos Heróis do Mar.

Eu sempre fui fã destes rapazes, dos tempos iniciais de “Amor”, “Paixão” ou “Cachopa”. Também gosto do disco onde está o “Fado”, o Macau. Mas acontece que o que viria a ser o último disco da banda, com os Heróis reduzidos a 4, é realmente muito marcante na minha vida. 

O primeiro engodo tinha sido uma canção chamada “O Inventor”, que eu, simplesmente, adorava. Ainda hoje tenho o maxi single (não, não há no spotify esta versão, cof cof, é só para verdadeiros conhecedores) 

O som do telefonema, o coro a perguntar “O quê’”, as evocativas  frases do refrão: “O vento sopra, o barco tem medo..às armas, às armas!” , a remix que a RFM, que tinha acabado de nascer e de que eu era fervoroso adepto (a vida é gira) passava…contribuíram para o meu entusiasmo quando saiu o álbum, e, logo, a desilusão…ao perceber que o Inventor não constava do disco. 

Mas o que ali encontrei compensou. Aquilo começa com uma paródia chamada Rossio e que já sugere caminhos que depois parte do grupo seguiu, num universo paralelo a que chamaria LX-90. Depois tem um balada chamada Café. Uma provocação aos costumes de fé, chamada “Santinha”, uma leitura muito própria da figura de Otelo em “Abril” (mais  som LX-90 a borbulhar), uma canção pop à Heróis do Mar chamada Eu Quero, uma maravilha chamada Africana, com Waldemar Bastos…

Suponho que os discos da nossa vida nos marcam por razões diversas: Numas férias muito duras para mim, com os desavindos meus pais, em Olhão, num parque de campismo, foi a gravação deste disco, que levei numa cassete, que me manteve à tona da agua. E isso é mais do que suficiente para figurar nesta lista. Às vezes, não são as canções. Não são só as canções. 

È a nossa vida.

 

 

 

Circo de Feras

Xutos & Pontapés

Editado em 1987

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Quando me arranjaram bilhete para ver os Xutos na Escola Náutica, em Paço de Arcos, eu não podia fazer ideia de que esse dia ia mudar a minha vida. Eu não conhecia nada dos Xutos, a não ser um single chamado Remar, Remar, que me tinham mostrado numa festa no Lceu. Desconhecia também a moda dos lenços da loja Porfírios, que se juntava às botas, t-shirts ou brancas ou pretas (não havia possibilidade de outras cores), o cabedal. 

Nunca tinha estado num concerto de uma banda portuguesa em que parecia que até as paredes do pavilhão suavam. Mas tinha ouvido os “Contentores” na Comercial e já tinha contado que, no fim da música, o Tim diz treze vezes (13, sim, vão lá ouvir) “Um pouco de fé”.

Cheguei com o pessoal, e levei com “Mãe”, “Morte Lenta” e a “Casinha”, e juntei-lhes o Circo de Feras (grande musica, pensei logo), Vida Malvada (Mudar de roupa, saldar o cabelo?), Esta Cidade (ele diz Filhos da puta sem razão e sem sentido não diz? Ele diz filhos da puta? F…!) ou N’América.

Não sabia, não tinha como saber, que, nesse dia, nasceu a minha história com os Xutos. Fui ouvir tudo o que estava para trás, lembro-me de vibrar com o “Conta-me Histórias “ e os “Barcos Gregos”, por exemplo…

E daí em diante, nunca os abandonei. Uns anos mais tarde, fui vê-los a uma discoteca (!). 

Se estavam 500 pessoas era muito. 

E de cada vez que soa a frase cantada pelo TIm: “A vida vai torta, jamais se endireita” é a mesma magia, algo visceral, o sitio bom, da verdade, do sofrimento mas também do puro gozo de onde os Xutos vêm.

Este disco é, obviamente, decisivo na carreira deles. Mas também na minha vida. Desde aquele concerto, num pavilhão sem condições, com um som fracote, sem pista nenhuma da dimensão que eles haviam de ganhar, no futuro, mas…já lá estava tudo 

O Zé Pedro, nesse concerto, deu um abraço a um tipo que estava na primeira fila e sabia as músicas todas. Pensar hoje, como esse gajo da guitarra havia de se tornar um bom amigo, é perceber que não devemos deixar-nos enganar: a lenda do rock and roll vive. 

Por isso sei que não sou o único a olhar o céu. E ainda bem. Xutos sempre!

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1 comentário

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De Anónimo a 17.04.2020 às 17:31

Começar em Dire Straits e acabar em Xutos, tão bom. É tão bom ter nascido nos 70's!

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