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1987.

por PR, em 28.06.20

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Ontem, enquanto regava o jardim, estive a cantarolar umas músicas, que o shuffle do Spotify me foi lançando, aleatoriamente. 

Numa lista a que chamo “Tugas para eu cantar”, calhou-me uma música que eu não ouvia, seguramente, há mais de dez anos. Fiz esta playlist pensando em canções portuguesas de que gosto, das mais recentes a outras mais antigas, mas o algoritmo ainda não me tinha brindado com esta faixa do disco “Terra Firme”, dos Trovante: Trata-se de um disco fundamental na minha vida, devo dizer. É de uma banda que, goste-se ou não - e eu sempre gostei muito - não tem nem o mais remoto paralelo nos dias de hoje. Bons músicos, uma voz carismática, excelentes canções, juntando raízes tradicionais portuguesas e a busca permanente de modernidade pop, servida por um cuidado permanente com as letras, muitas vezes recorrendo a poetas maiores da literatura portuguesa. Claro que podemos apontar o escândalo de todo um colectivo - todo! - de meias brancas, na capa do disco. Mas isso é mais uma demonstração de que todos nós somos, vistos à distância de uns anos, bastante risíveis. 

E voltar a este disco, por causa da canção “Sinais”, que termina com o seu solo de saxofone de época; levou-me ao ano do disco. E lembrei-me que há anos que, realmente, nos marcam mais dos que outros. 1987 foi há muito tempo. Mas, em mim, foi ontem, em muita coisa.

No sentido de que me lembro, com notável nitidez, de sítios, pessoas e coisas que me aconteceram. Mais, muito mais, do que coisas que aconteceram bem depois.

A minha avó Dulce ainda era viva, em 87. A passagem do tempo também são dores novas que aparecem. E ficam. Vão ficando.

Em 1987 eu tive 16 anos. E um fato de treino da Le Coq Sportfi, verde e preto. Que eu combinava com os primeiros Nike que tive, completamente brancos, que eu adorava, e que usei até muito para lá dos limites.

Pensar em 1987 é pensar em discos que me apareceram nesse ano, e se plantaram em mim para sempre, como pedras basilares do adulto que viria a ser: Fui googlar a lista agora, e impressiona:

Clutching at Straws, dos Marillion. Actually, dos Pet Shop Boys.  Sign o’The Times, do Prince. Joshua Tree, dos U2. Tunnel of Love, de Bruce Springsteen. Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me, dos Cure. Kick, dos INXS. Bad, do Michael Jackson. Faith, de George Michael. Introducing the Hardline According to Terence Trent D’Arby. The People Who Grinned Themselves to Death, dos Housemartins. A Momentary Lapse of Reason, dos Pink Floyd. Nothing Like the Sun, de Sting. Hysteria, dos Def Leppard. Apetite for Destruction , dos Guns N Roses. 

A coletânea Substance, dos New Order. 

E também: Circo de Feras, dos Xutos & Pontapés. Mar D’Outubro, da Sétima Legião. O icónico Os Dias da Madradeus, dos Madredeus. O disco Rui Veloso (que era para chamar-se “Os bês pelos vês” - ou o contrário, nunca sei -. 

E, claro, o tal Terra Firme, dos Trovante.

Não foi um mau ano!

1987 é estar sentado na escada de mármore, que dava entrada à Praceta de Nampula, lá em Oeiras, à conversa com amigos. É a primeira namorada, uma baixinha queridissima, portuense emigrada, com quem troquei cartas enamoradas no verão, enquanto ela passava férias com os pais, na Madeira. O pai tinha um Renault 11 azul, e ela morava na Praceta de Sofala, para onde dava o r/c onde eu vivia com os meus pais. Em 1987 o meu pai ainda era vivo, e os meus filhos ainda eram pó de estrelas. 

Eu tinha 16 anos e já era obcecado por rádio, gravando cassetes à procura de músicas mas também dos jingles, que já era matéria que me fascinava. Tenho essas cassetes algures.

1987: o ano das primeiras férias a acampar em Ferragudo, com os meus três amigos mais antigos: o Manel, o Zé e o Pedro. Fomos na Rodoviária, a enjoar, numa abafadissima viagem. E a praia dos Caneiros ficou, para sempre, a minha praia mais especial do Algarve, com aquele rochedo ao fundo, e a praia de nudismo ao lado, onde só se chega nadando, quando a maré sobe.

Tudo fez deste ano de 87, uma fronteira bem definida, um antes e depois, dentro de mim.

O ano do primeiro beijo, o ano da ida para o Liceu de Oeiras para uma turma onde me apresentei de blusão Mike Davis com enchumaços, gel no cabelo, ténis diadora, e encontrei a melhor turma que já tive. 10ºQ e 11ª F (Sim ainda sei). Alguns dos amigos que fiz na altura ainda hoje estão por perto, nos meus dias. 

1987, a primeira vez que vi Xutos, Rui Veloso, Trovante, GNR, em concerto.

A praia era a de Santo Amaro, ali a meio, entre o Saisa e a do povão em frente ao Restaurante Pérgola, que é hoje um McDonalds. 

O meu pai tinha um Datsun 120 Y branco. O meu pai era um pesadelo. Mas 1987 conseguiu ser um ano tão bom! Eu tapava os ouvidos e havia sempre um dia seguinte. E os dias de 1987 deram-me amparo e alento, de cada vez que saia de casa. Foi nesse ano que me apareceu o meu grupo de amigos, lá em Oeiras, e, com essa malta, as noites passadas entre o Pelourinho e o Jardim de Oeiras. Conversas infinitas. As idas ao Shopping das Palmeiras. E ao fogo de artifício das festas de 7 de Junho. A ideia de ter 16 anos e remeter para 1987 não tem nada a ver com os 16 anos de hoje, com telemóveis, redes sociais, playstation, netflix. 

Ter 16 anos na altura, que coisa tão boa. Há uma certa ternura, de cada vez que penso nesses tempos.

Tenho quase 50 anos. E, em compensação, quando penso nisso, há um certo desconforto. 

Em 1987 tinha 16 anos e foi um ano mesmo mesmo importante. Eu tinha um dossier, que está aqui à minha frente, um daqueles dossiers de argolas, com folhas A4 pautadas. Não era um diário, mas nele deixei memórias escritas que hoje dou graças a Deus por não ter deitado fora ou perdido.

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Quando ouço as músicas de 1987, é aquele viagem boa. As nossas festas, em casa do Pedro ou da Silvia, com direito a convites manuscritos e fotocopiados. Festa Flirt e Festa Catch, vi agora aqui no tal dossier. 

Gostava de poder encontrar aquele Pedro que eu era, em 1987, e ter uma conversa com ele. Gostava de ouvir o que ele teria para me contar. Queria ouvi-lo. E tranquiliza-lo. Dizer que ia demorar a ficar bem, e fazer imensos disparates, mas que ia acabar por ficar bem, sim. 

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2 comentários

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De Anónimo a 09.07.2020 às 21:38

Adorei, como sempre, este texto. Só li hoje. Lembro-me bem desta época...
Continua a escrever. Beijinhos. Fica bem. Adoro-te.
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De SemNome a 10.07.2020 às 14:48

Tinha 10 anos, das muitas coisas que me lembro de 1987, uma marcante, mas pouco importante no grande esquema das coisas, foi o calcanhar do Madjer.

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