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O o-ó

por PR, em 02.05.18

Carminho,

 

Tu estavas podre do dia da escola, e do cansaço que deve vir da excitação diária dos ensaios dessa coisa nova e espectacular que será, um destes dias, andar.

Hoje tive toda a paciência do mundo, pegue em ti, fui deitar-te, e fiquei ali ao teu lado, pus uma musica de embalar com piano suave, e esperarei que adormecesses. Não te deitei, fiz uma festa e disse: "Deita, faz o-ó" e vim para a sala.

Não. Hoje fiquei ali, ao pé de ti, com toda a paz de espirito do mundo, toda a vontade de desfrutar cada segundo, e guardar este momento só para nós, para sempre.

Fiz-te festinhas, passei a mão pela tua cabeça, tu sorriste umas vezes, levantaste o pescoço outras, mas suavemente fui dizendo "deita, faz o-ó", e tu deitavas a cabeça, na tua caminha, e ali ficámos. Não sei quanto tempo passou, mas sei que já tu dormias há que tempos e eu fiquei ali, só a ver-te dormir. A pensar como é uma sorte imensa, neste confuso mundo sempre a correr e a gritar qualquer coisa, estarmos ali os dois, um rumor da tua descansada respiração, o piano a tocar no telefone, baixinho, e eu a despedir-me de ti "boa noite, meu amor, até amanhã".

Tão, mas tão bom. 

 

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Dias assim.

por PR, em 23.04.18

Temos um cão na família. Já não ladra a noite toda. É lindo, um bébe de pêlo. A Maria tem pesadelos com aranhas, e depois, durante o dia, é uma valente, a andar no corredor, deitada em cima do skate do Francisco. O Gonçalo já cortava aquela trunfa. A Mafalda tem o telefone todo escafiado. O Miguel tem de ter cuidado para não fazer com que os seus pontapés à CR7 levem a bola para o vizinho. Outra vez. 

Estou a escrever um romance. Sai até ao fim do ano. E outro livro, de bola, que também há de ver a Luz, antes do fim do ano. 

Temos um cão na família. Xixis e cocós para limpar, felizmente só os dele. Na rádio estamos com a cabeça no futuro, está a ser muito giro. E vai ser ainda mais. 

 

 

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Dia Mundial da Poesia

por PR, em 21.03.18

Mal nos conhecemos Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso

De boca em boca,

Um olhar bem limpo, Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,

Um coração pronto a pulsar

Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí, Escrupulosos detritos?)

«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,

É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,

Um trabalho sem fim,

Um espaço útil, um tempo fértil,

«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

 

 

Alexandre O'Neill

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Feito.

por PR, em 27.02.18

Isto começou  por ser uma daquelas coisas que se dizem, em tom de brincadeira. O Nuno disse que sempre sonhou um dormir um dia na IKEA, só para ver como será a loja por dentro,quando está fechada ao publico. E depois começámos todos a pensar que isso ia ser giro e dava uma emissão engraçada, do programa. O IKEA adorou a ideia e eis que nos apresentamos em Alfragide. E sim, dormimos lá. Nós e uma equipa de gente que trabalhou do final de uma tarde ao final de uma manhã, num duro exercício físico, mas que foi muito divertido e inesquecível.

Notas que ficam: as luzes nunca se apagam; há gente a trabalhar desde as 3 da manhã, aquilo é gigante, as pessoas são muito simpáticas, a ceia servida ás 2 da manhã foi incrível, os quartos que decoraram para nós estavam lindos, vou estar uma semana para recuperar da noitada.

 

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Amor é Podcast sem se ver.

por PR, em 21.02.18

Estreámos, há dias, na rádio, uma série de Podcasts, e um deles fala de amor. A ideia é simples: casais contam a sua história. Como acho que nada bate as histórias reais (afinal, a ficção tem de inspirar-se em algum lado!), dei comigo a ouvir com atenção e gosto, os dois episódios que já estão disponíveis,

A história, powered by Erasmus, em Barcelona, da Sofia e do Pedro,. E a história, movida pela música, do Tiago e a Marisa, dos Amor Electro.

Ouvir falar de amor é sempre bom, creio que se aprende sempre qualquer coisa. Pode ser inspirador. 

Cada história tem as suas nuances próprias, e ouvir as histórias dos outros é voltar a olhar para a nossa, ver pontos em comuns e outros que não.

É uma tarefa diária, que se trava com ardor, como cantava uma música de um disco que tenho lá em casa. 

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É uma cor que dá na vida o amor

é uma luz que dá cor

é uma cor que dá na vida o amor

é uma luz que dá na cor

mas é uma batalha perdida

que se trava com ardor

é uma cor que dá na vida o amor

dor que desatina sem doer

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Vinil

por PR, em 19.02.18

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Este ano, a Rita ofereceu-me um presente que eu queria ter há muito: uma gira-discos, amplificador e colunas. A possibilidade de voltar aos meus discos da infância e de toda uma vida, mas que não ouvia há tanto tempo. Também deu para perceber que alguns estão impraticáveis, por estarem mesmo muito riscados. 

Mas aquele ritual de mudar os discos de lado, limpar a agulha e os álbuns, voltar a tocar as capas, recordar os natais em que recebi alguns daqueles discos.. Foi muito emocionante.

Tudo num móvel restaurado, e com a inscrição, num dos lados, de letras de músicas especiais, para mim, dos U2.

E agora a viagem não pára, lá em casa::do raro e improvável "Miracle" dos Kane Gang ao "Another Brick in the wall" dos Pink Floyd, o "Alchemy" e o Misplaced Childhood, o Joshua Tree e o "Na vida real". Uma viagem que vai muito para lá da música. 

Tão bom. Melhor presente de sempre. 

 

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10-22. Perdem todos.

por PR, em 10.02.18

Quando um pai olha para uma filha, que ama como ama todos os seus filhos, mais do que a sua própria vida, e pensa: é uma injustiça incompreensível, esta coisa de ter apenas 10 dias em cada mês com ela. E ela com o pai, com os irmãos, com a mulher do pai, que a trata com o amor com que trata todos, numa casa que é dela também.

Semana sim, semana não,  de quinta a segunda.  Ou seja, nunca, a não ser nas férias, esta criança passa terças e quartas-feiras com o pai, os irmãos e por aí fora. Nunca. 

Faz sentido? 

Não entendo como não é por default uma semana com a mãe outra com o pai. E como há pais e mães que não percebem que é esse o interesse da criança, um equilíbrio que é necessário defender intransigentemente.  

Em tempos de justa mobilização pela defesa de direitos elementares, é talvez hora de lutar também contra esta discriminação, que é tantas vezes prejudicial às crianças visadas e às suas famílias.

Além de ser uma profunda dor, permanente como uma moínha que está sempre ali, pela vida fora, enquanto o tempo passa, as crianças ficam a perder e ninguém ganha.

Ninguém.

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Tape Loading Error.

por PR, em 07.02.18

“Não há talentos, há bois, pessoas que marram até aquilo ficar bom"

 

António Lobo Antunes

 

Tenho, há anos, um debate interminável com alguns amigos, sobre esta questão. Por exemplo, quando alguém usa aquele chavão "o Messi é talento, o Cristiano é trabalho." A verdade é que a fronteira entre o que não sabemos sobre o que somos, completamente, e aquilo que vamos aprendendo é como o nevoeiro: sabemos que existe, está lá, mas agarrá-lo...

A ideia de que, trabalhando, se consegue ser um Lobo Antunes ou um Ronaldo é, para mim, mais fantasiosa do que a ideia, que reconheço ser também atacável, claro, de que há pessoas que nascem com um talento, ou, pelo menos nascem com propensão para escrever excepcionalmente bem ou marcar muito mais golos e fazer muito melhores fintas que os outros. Ou outro talento qualquer que, depois, com dedicação e muito trabalho, floresce em definitivo e acaba por ser a primeira definição da pessoa, para a posteridade. 

Não acredito que Ronaldo pudesse ter sido Lobo Antunes, por muito que trabalhasse. nem que Lobo Antunes se tivesse tornado mais que Di Stefano, por muito que treinasse. 

Agora que há, nesta equação, outros factores, que vão da genética à educação que nos calha, sim, claro que sim. Mas o que é fascinante, e faz com que este debate continue pela vida fora, é que há aqui um mistério irresolúvel, ligado, digo eu, ao mistério do que separa o que é mera carne, e sangue, e tecido e água, daquilo que é pensamento organizado, sentimento, instinto. No fundo é uma questão de fé. Acreditas no que decides acreditar.

Para mim, o trabalho é, claro,  determinante., e muito talento já se perdeu porque quem tinha a sorte de o ter o desperdiçou. Mas se creio que o trabalho potencia o talento, não acredito que determinados talentos nasçam de apenas muito trabalho, se não estiverem lá, desde o inicio, como uma semente qualquer que não sei explicar.

 

 

 

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28

por PR, em 31.01.18

Um de Fevereiro não é só o primeiro dia de um mês que me é sempre muito especial. É o mês dos meus anos, é o mês em que a minha avó fazia anos, da primeira vez que casei foi em Fevereiro, o meu clube nasceu em Fevereiro, foi em Fevereiro que pedi a Rita em casamento, e ela disse sim...e comecei a minha carreira, justamente, a 1 de Fevereiro, faz hoje 28 anos.

Depois dos 40, e à medida que os 50 se aproximam, uma pessoa começa a notar mais o quão depressa passa o tempo. Os dias são longos, mas os anos curtos, como vi esta semana num filme. Pessoas que nos desaparecem, e o tempo a começar a fugir-nos. Uma pessoa dá consigo a fazer balanços, a ter outra capacidade de reflexão e a ganhar uma distância maior em relação a coisas que, antes, eram dramas, e agora sabemos relativizar. 

Eu fui para a rádio por intuição, vontade, e acima de tudo, sorte. Não conhecia ninguém, não tinha experiência, era só um dedicado ouvinte. Alguém que cresceu com a Rádio desde a infância, e que brincava às rádios, com a mesma frequência com que brincava com carrinhos ou jogava à bola. Às vezes, na escola ou na rua, enquanto jogava, fazia mentalmente o relato do jogo que estava a jogar! Quantas vezes! E a minha avó apanhava-me a gravar relatos da bola para um gravador e dizia "Meu pató das iscas, um dia ainda vais dar na rádio".

Dei. Dou. 

Tive sorte, tive mesmo muita sorte. Apanhei uma altura poética de explosão de novas ideias e talento, na rádio que estava, eufórica, a mudar. Enviei o meu curriculum, que constava de uma folha A4, dactilografada no escritório onde a minha mãe trabalhava, com o meu nome e morada e pouco mais. Umas frases a explicar que adorava rádio e queria fazer. Foi um milagre.

Mandei para duas estações: TSF e CMR - Correio da Manhã Rádio. Eram duas estações locais de Lisboa, que estavam a desbravar caminho, na linguagem, no cuidado com a plástica, na novidade que representavam, na garra. Eu, no 10º ano, tinha feito um trabalho, para a disciplina de Jornalismo, no Liceu, em que fui a duas rádios: a brasileira Cidade, num sótão do Casal de São Brás, na Amadora; e ao Chiado, espreitar a então recém nascida, e entusiasmante, RFM. Fui lá num fim de semana, pela mão do meu professor, que era, na altura, jornalista na Renascença.

Nesse trabalho, comparei o que vi e ouvia. E a verdade é que, anos mais tarde, não sei porque razão não escrevi também para a RFM (para a Cidade não ia escrever, pois o meu sotaque brasileiro nunca foi isso tudo) , mas a verdade é que só o fiz para as tais duas rádios, então piratas, e com estúdios nas Amoreiras (na altura o pináculo da modernidade). O CMR tinha sido criado com o génio criativo de gente que vinha, justamente, do universo Renascença-RFM, como o Rui Pêgo, Mário Fernando, Miguel Cruz, Nuno Infante do Carmo, Teresa Fernandes, João Vaz. E depois tinha, quando ali entrei com 18 aninhos,  Margarida Pinto Correia, tinha Rui Vargas, tinha o meu grande companheiro de madrugadas Luís Costa, tinha João Pedro Bandeira, Pedro Coelho, Judith Meneses e Sousa, Paulo Guerra, Alberto Jorge, Fernanda de Oliveira Ribeiro e muitos outros que faziam uma estação irresistível. Eu adorava aquela rádio. Era tão bonita. Tinha gente incrível, tinha jingles modernos, tinha aquela centelha mágica e rara das coisas únicas, aquela borbulhante experiência química invisivel mas que se sente, das coisas que sabemos que são maiores e vão ficar. 

Por sorte, ligaram-me para uma entrevista. Pus uma horrível gravata do meu pai, vesti um fato dele, e fiz-me à Torre 3 das Amoreiras, 7º Andar, sala 703.  Fiz uns testes, e, fiquei com o melhor trabalho do mundo: noticiários de madrugada, por 58 contos e oitocentos, recibo verde.

A TSF nunca me respondeu. E bem. :-)

Era a rádio jornal, tinha Emídio Rangel, tinha António Macedo (hoje meu querido amigo), tinha Fernando Alves, Francisco Sena Santos, João Paulo Baltazar, José Manuel Mestre, Paulo Bastos, João Almeida. João Gabriel, David Borges, Elisabete Caramelo, Maria Flor Pedroso...teria sido um caldeirão igualmente saboroso para mergulhar. Acho que, um dia, ainda lá vou, fazer uma perninha, à TSF, para acertar essas contas. Ou à RFM.

Hum, difícil. :-)

Hoje em dia, o que era impossível era um percurso como o meu. A começar pela chegada ao CMR.

Eu não tinha entrado na Faculdade, não tinha portanto Curso Superior, não conhecia ninguém no meio que me pudesse recomendar, não tinha experiência alguma, mas viram em mim o suficiente para abrirem esta porta. Mal eu podia imaginar. Tem de se perceber o tempo que era. 1990. Não havia Internet, e o Fax era o cúmulo da tecnologia, numa redacção. Não havia telemóveis. Escrevíamos em máquinas de escrever, espreitávamos a temperatura, num painel luminoso da Phillips, que víamos da janela. Tínhamos cassetes para a publicidade. E muito vinil para tocar, além de Cd's que estavam numas prateleiras de plástico, todos indexados com autocolantes na lombada, na redacção. Miguel Cruz, hoje director da M80, foi o meu grande professor, a ensinar-me com paciência e paixão evidente por todos os meandros deste sortilégio que é a Rádio, todos os pormenores de funcionamento do estúdio, as máquinas de bobines, o híbrido para gravar chamadas, os microfones, a mesa de mistura Kora (ou Cora?), cor de laranja. Tudo era descoberta e sonhar acordado. Que pica!

Caramba, passaram 28 anos e lembro-me de tudo, e lembro-me até de uma forma sensorial...recordo com clareza o cheiro daqueles estúdios, o toque de madeira dos cacifos no corredor, e como fiquei tão feliz quando tive um com o meu nome. Aquela foi a minha escola, a conhecer gente impossível, numa caldeirão criativo e à frente do seu tempo. Foi tão bom que eu daria tudo para lá voltar, um dia que fosse. Para editar um jornal, ou fazer uma reportagem, ou fazer um painel de música, ou o Jogo Aberto com o Luís Miguel Pereira; ou o Prok Der e Vier com o Markl, o Vital e o mesmo Luís, e depois o Nelson Pereira. Poder voltar ao primeiro dia em que conheci o recém-chegado do Cenjor, Nuno Markl, para que uma voz me dissesse: "Olha, este tipo vai ser teu amigo toda a vida." Ou ficar a torcer para que o Rui ou o Mário não viessem de manhã e eu pudesse fazer o painel, depois de já ter estado a trabalhar desde as onze da noite anterior.

Ou o Pedro Coelho a dar-me a merecida chazada, explicando-me, com firmeza, que não há trabalhos de primeira e segunda categoria: há trabalho para fazer, sempre com o mesmo brio. Ficou-me. Ou a discussão filosófica com a Margarida Pinto Correia sobre o 11 de Março e sobre se é possível o Católico não-praticante. Não podia imaginar que, décadas depois, eu teria, com a graça de Deus, uma filha a 11 de Março.

Ou quando tocava o anúncio cantado da chegada da Pizza Hut a Portugal, e eu subia para as mesas da redacção e dançava aquilo: "Deliciosas e quentinhas, tão gostosas e fofinhas, pan pizza, é Pizza Hut..."

Quando tivemos de sair daquele ninho de magia e fomos atirados para a Comercial em 93, foi um choque tremendo. Um salto no tempo ao contrário, para um nível tecnológico muito mais atrasado e uma empresa com uma cultura instalada que não tinha nada a ver connosco. E fomos logo atirados para a edição das Manhãs. Que loucura. Nós, sonhadores, a entrar ali com frases de posicionamento do calibre de "Todas as Manhãs do Mundo".

Mal eu podia imaginar como, com o tempo, seria a Comercial, a rádio da minha vida, e não outra.

Em 96 deixei a Informação, após um noticiário de uma manhã de São Valentim (lá está, Fevereiro), em que abri a edição com as imortais palavras: "Meu amor...", e li o noticiário como se de uma carta de amor se tratasse. Percebi que não queria ficar amarrado à espuma dos dias na redacção. Sentia ter em mim todos os sonhos do mundo e queria era falar com as pessoas, dar-lhes música, e fazer um caminho na animação.

Para trás ficava a carreira de jornalista, e os anos de relatos de futebol, no CMR e na Comercial, que me ajudaram a perceber que sim, eu podia ser criativo, surpreender as pessoas, e ter um valor extra naquilo que fazia, para lá do rame-rame do dia a dia das notícias.

Faço Manhãs da Rádio desde 1996, sim. E cada vez me custa mais levantar-me tão cedo, para ir trabalhar, confesso. O que vale é que, a cada dia que chego ensonado ao estúdio, dá-se aquele momento mágico em que ligo o microfone e...não há nada melhor.  É tão bom, é único. 

Em 28 anos de carreira já trabalhei com gente inspiradora e gente fraca. Já conheci todo o tipo de directores, administradores, accionistas. Já gritei e discuti, e desiludi e desiludi-me. Já errei muitas vezes, mas também já tive momentos realmente muito bons, que marcam a vida, para sempre. Fiz parte de equipas extraordinárias e continuo a sentir que aprendo sempre com quem me rodeia. Seja com a estagiária de 20 anos, seja com um veterano que encontro. A cabeça aberta para aprender é o que nos mantém despertos e a postos para o que vem a seguir. Conseguimos aquele dia histórico de 12 de Julho de 2012, quando fomos lideres de audiência pela primeira vez, e como aprendemos todos o quão relativo isso é, e como, na nossa essência, não muda grande coisa, já para não falar na nossa carteira. 

28 anos de Rádio, hoje. A verdade é que só tenho menos dois de trabalho em Televisão, mas a Rádio tem sido a minha casa, o meu ninho. Gosto de voar para longe, mas gosto de voltar sempre lá. 

Em 28 anos, assisti a uma mudança tecnológica vertiginosa, que continua a acontecer. E sei bem que a Rádio, tal como era quando nela entrei, naquela madrugada de 01 de Fevereiro de 1990, já não existe mais.  Como a nossa infância. Ou a inocência que se tem, e depois se perde. Bem, mais ou menos, porque ainda hoje dou comigo, por vezes, a ser vitima de uma inusitada ingenuidade que me trama. Ou me inspira e motiva, mantendo-me fiel a mim mesmo e ao que sou. Com 28 anos de carreira, quero descobrir outros desafios, quero ir lá à frente, quero sempre ir lá à frente, espreitar o futuro, e procurar oportunidades em vez de medos. Uma sociedade de informação e entretenimento integrada, ao nosso alcance a toda a hora, capaz de nos surpreender e inspirar, capaz de manter a sua própria magia única, que soube conduzir a Rádio até 2018. Tentar perceber o melhor que se conseguir, o mundo que nos rodeia, para poder continuar a chegar às pessoas, mas sabendo que tem de ser de outra maneira, porque, como sempre, the times they are a-changin.

E procurar ter connosco quem perceba isso, e saiba investir na criatividade e no rasgo, e não se conformar com a efémera, egoísta glória de um mero EBITDA. Que olhe para esta coisa da comunicação com um olhar mais profundo, construtivo, que queira desenvolver e investir. Que acredite. Que o mundo é do Excell, mas quem o faz andar para frente é o Word. Há mais para ganhar a quem souber ver mais longe, e construir. Está no ar. Como a rádio, a cada dia. Hoje como há 28 anos, pelo menos essa parte ainda é semelhante. Até ver.

Eu vim para a Rádio, porque não me aceitaram no futebol. Vim para a Rádio porque era uma coisa ou outra, e tive a sorte da Rádio me acolher.  Num estúdio de rádio, ao fim de tantos anos, já se viveu de tudo. Soube que o meu pai tinha morrido, estava eu a fazer emissão. Quando os meus filhos nasceram, os ouvintes foram dos primeiros a saber. Nos estúdios desta vida, já ri até ás lágrimas e já chorei sem parar. Já me comovi e já discuti com amargura, já tive momentos inesquecíveis de microfone ligado e desligado, fiz amigos para toda a vida, e já vi laços desfazerem-se, para sempre. CMR, Nostalgia, Comercial, Best Rock, RCP, por todas estas ondas andei. Já estive perto da Antena 3 várias vezes, e nunca lá fui parar. Uma vez até houve a possibilidade Renascença - nunca tinha contado isto, mas caramba, já passou tanto tempo!, já se pode contar. Foi de lá, aliás, que veio a primeira de todas as minhas influências, o mítico Despertar de António Sala e Olga Cardoso. Uma vez até tive a possibilidade de ir para Espanha. Não deu.

Hoje faço 28 anos de carreira. O que quero fazer a seguir? Crescer, aprender mais, descobrir novos sonhos e essa coisa chamada futuro, numa era de enormes mudanças e interrogações sobre esta actividade, este negócio, esta profissão. Ou então, mudar. Também pode ser.

Depois de 28 anos neste mundo, sabemos que o mundo é maior que o nosso, sempre. 

Mas por enquanto, amanhã, daqui a pouco, aliás: "Comercial, bom dia, são 7 horas"

A Rádio, dona dos meus dias há 28 anos.

Obrigado.

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A caminho de Viseu.

por PR, em 28.01.18

 

Tive de ir ontem a Viseu. Há muito tempo que não passava pelo IP3, uma estrada que conheço bem, mas que me pareceu fantasmagórica, desta vez, apesar do dia de céu limpo, e sol de inverno.

É desoladora, a visão de quilómetros e quilómetros de estrada cercada por florestas negras de árvores queimadas perfiladas, pelos campos dentro e mesmo com áreas queimadas às portas de áreas urbanas, como Santa Comba Dão ou Tondela.

Uma pessoa dá consigo a pensar inferno que aquilo foi, e, como sempre, vem aquele pensamento que tantas vezes me assalta, quando me confronto com este tipo de tragédia: já não é noticia de telejornais, mas, na vida daqueles que foram tocados por este inferno, é e continuará a ser notícia, pela vida fora.

Uma estrada que tem partes absolutamente espectaculares, está agora transformada num caminho desolado, onde cada árvore queimada, cada terreno transformado em cinza, cada casa destruída, cada placa da estrada com partes derretidas pelo fogo é uma lembrança de uma tristeza que é como uma queimadura dentro de nós. 

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