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Um dia para toda a vida.

por PR, em 27.01.16

Passam hoje 71 anos sobre a libertação de Auschwitz. Claro que, naquele dia, muitos prisioneiros não podiam imaginar que, depois daquele inferno, seguir-se-ia outro, às mãos do exército vermelho. Mas, nesta história, a regra é justamente a de passar a assumir como possível o até aí inimaginável.

Nos 3 campos, junto à cidade polaca de Oświęcim, perto de Cracóvia, foram assassinados cerca de um milhão e 300 mil seres humanos. Uma matança animalesca, sádica, doentia, por uso de câmaras de gás, mas também por fuzilamento, ou simplesmente por fome, exaustão, espancamento. 

No fim de semana passado, cumpri o velho sonho de lá ir. O estudo da 2ª Guerra Mundial, uma vida de leituras e documentários, e subitamente ali estava: 12 graus negativos, tudo coberto de neve. As ruínas das Câmaras de Gás destruídas na fuga nazi.  Mas uma, intacta, no campo 1, o da cínica frase no portão de entrada: "o trabalho liberta".

Pisar aquele chão.

Atmosfera pesada, uma energia estranha, um peso silencioso, o tempo todo. Uma certa sombra que se entranha. Custa respirar aquele ar, não sei explicar. E depois, os despojos, que sublinham a ligação física à história macabra que ali teve lugar: roupas, cabelos, utensílios usados pelos prisioneiros e pelos guardas. Auschwitz foi uma máquina de morte, como o foram tantos outros campos de concentração e extermínio, erguidos pelo 3º Reich. Mas aquele foi o maior. Uma das coisas que mais impressiona, chegando lá, é exactamente a dimensão, sobretudo em Birkenau, ali a 3 kms. As crianças, os velhos e toda a gente considerada incapaz para o trabalho era logo eliminada à chegada, levada ao gaseamento apresentado como um higiénico e inocente banho. 

Judeus, mas também opositores polacos, soldados soviéticos, ciganos, homossexuais.

Experiências macabras, mascaradas de científicas. A caça aos gémeos para esse fim. 

A utilização de prisioneiros para retirar os cadáveres das câmaras de gás, e depois pilhar tudo o que fossem objectos de valor das vitimas (de dentes de ouro ao vestuário). Gente que meteu nos fornos crematórios amigos ou familiares. A violência psicológica que deixou marcas para toda a vida, para lá das marcas físicas, em sobreviventes que sabe Deus como conseguiram uma vida normal, depois. Muitos, obviamente, não conseguiram.

Se aconteceu uma vez, pode repetir-se. De lá para cá tivemos e temos outros exemplos de tirania sádica, perseguição e assassinato por razões políticas ou étnicas. Mas a dimensão de Auschwitz continua a ser esmagadora, e ainda bem que esse peso se faz sentir. Porque é imprescindível que a memória não se apague e um crime em cima de um crime seria tentar transformar o que ali se passou em algo mais leve.

Um insulto às vitimas e à parte boa da Humanidade, em que, apesar de tudo, creio.

Ir a Auschwitz foi uma experiência de fortíssimo impacto e inesquecível. Essencial, para mim. 

Toda a gente devia lá ir. Tentar perceber é impossível, porque tudo ali parte de um absurdo criminoso inconcebível. Mas o mínimo que podemos fazer é não apagar este memória colectiva da Humanidade: aquilo aconteceu mesmo. Ao menos que sirva para aprendermos, e estarmos atentos.

Confiscar bens e dinheiro a refugiados de guerra, como está a acontecer na Dinamarca, é deplorável. Mas é mais um motivo para olharmos com responsabilidade e atenção para o que a História tem para nos ensinar. Está ali tudo, é só ver para lá das ruinas, dos turistas, daquele frio na alma, daquela dor.

 

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11 comentários

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De Princess Beauty a 28.01.2016 às 14:30

É sem dúvida um dos lugares mais tristes da história da humanidade. Desde há muitos anos que faz parte dos meus planos de viagem, nem que não seja para tentar entender o que não é possível.
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De Lilly a 28.01.2016 às 15:10

Boa tarde Pedro,

Desde que me conheço por menina adulta que tive um fascínio imenso pela história dos Judeus, campos de concentração e o que raio de passava no cérebro de Hitler e seus seguidores. Leio livros, vejo documentários e filmes e mesmo assim nunca entenderei tal crueldade. Ao ponto que o ser humano consegue chegar. É vergonhoso, triste e nem sei, nem sei que adjectivos utilizar. Também quero muito ir a Auschwitz e visitar todos os locais pormenorizadamente. Acredito que seja realmente uma atmosfera pesada, mas pela história que carrega penso que todos nós deveríamos visitar e ver com os nossos olhos que realmente há um local onde a maldade realmente existiu em massa, simplesmente porque sim.

Um feliz ano!
L.
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De NF a 28.01.2016 às 17:25

Ficou para a história...
Foi daqueles sítios por onde passei e senti pele de galinha, arrepiante, mesmo! Acho que toda a gente devia visitar um local como aquele (no meu caso, visitei este mesmo, na Polónia e deixou-me a pensar). Ficamos a ter real noção daquilo que se passou, da barbaridade que foram aqueles actos.

Abraço
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De Manuela a 28.01.2016 às 17:36

Concordo...em 2007 fiz essa viagem...foi a viagem da minha vida, porque me levou a pensar como o Homem pode ser tão cruel...sente-se os mortos em Birkenau....em silêncio...com um peso indescritível...foi real....saí de lá arrasada....não voltarei, mas após essa viagem tornei-me uma pessoa melhor.
Birkenau modifica.....
Proponho que as professoras organizem este tipo de viagem aos finalistas do liceu....para que este tipo de acontecimento não seja NUNCA esquecido.
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De Anónimo a 28.01.2016 às 20:12

Excelente texto! De facto sem palavras! É uma das minhas viagens a efetivar ainda no ano de 2016. Acredito que será com certeza "Um dia para toda a vida" Inesquecível, infelizmente pelos piores motivos.
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De Anónimo a 29.01.2016 às 00:18

"Passam hoje 71 anos sobre a libertação de Auschwitz. Claro que, naquele dia, muitos prisioneiros não podiam imaginar que, depois daquele inferno, seguir-se-ia outro, às mãos do exército vermelho." que aconteceu a estes seres humanos às mãos do exército Vermelho? Onde estão os dados comprovativos? tanta contra informação não faz bem à saúde mental

Paulo Gonçalves
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De PR a 29.01.2016 às 11:54

Leia mais. Precisa.
Um abraço

Pedro
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De M.G. a 29.01.2016 às 07:41

A Dinamarca situa-se na Europa do Norte, considerado país de “referência”. Perante isto… algo vai mal no Reino da Dinamarca.
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De Anónimo a 29.01.2016 às 07:46

Ja vivi esta experiencia muito bem descrita por si quando la estive. BG
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De Anónimo a 29.01.2016 às 09:25

Auschwitz é a industrialização de uma corrente genocida, nada mais. Tornou-se mediática por não ter sido possível de apagar por parte do regime nazi, aquando da debandada face ao avanço do exercito vermelho. Daí ter-se tornado uma atração turística, ainda que mórbida. Infelizmente não podemos fazer nada pelos que ali perderam a vida. Preocupo-me mais com as correntes igualmente genocidas de hoje, pois são em países pobres e sobre populações sem qualquer meio de fuga, cujos danos já superam largamente os de Auschwitz. Com a diferença de que, não havendo riqueza, o mundo prefere olhar para o lado e fingir que não está a acontecer HOJE, enquanto escrevemos, ou vemos televisão.
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De Fernanda a 30.01.2016 às 17:45

E no entanto, na ex-Jugoslávia voltou a acontecer, em dose mais reduzidas, mas aconteceu

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