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Quantos foram os primeiros dias?

por PR, em 16.08.16

Estávamos algures no arranque do verão de 88, era uma ultima aula de Psicologia, no Liceu de Oeiras. A professora era nova e desempoeirada, e naquele dia, o Pedro Guedes levou a viola. Foi nessa aula que ouvi, pela primeira vez, "O Primeiro Dia" do Sérgio Godinho. Fiquei encantado com o engodo da melodia, ali no refrão, a pedir acompanhamento. Toda a gente cantou quando o Pedro fez, como no original , aquela branca no fim, aquele convite à frase "hoje é o primeiro dia do resto da tua vida", e, para mim, sim, ali foi um primeiro dia, mesmo. Desde então essa, e muitas outras - uma deu nome ao blogue e tudo - do Sérgio Godinho acompanharam-me em muitos dias da minha vida. Uns que foram primeiros dias, outros dias úteis, outros em que isto estava tudo ligado, outros que foram emboscadas, noites passadas, às vezes à espera do comboio na paragem do autocarro, ou espalhando a noticia do mistério da delicia, ou pedindo meu amor eu gosto tanto da forma como tu gostas mas por favor anda buscar as tuas unhas às minhas costas, e por aí fora. 

Quantos primeiros dias temos? Quantas vezes começa o resto da nossa vida? Quantas vezes olhamos para trás e só assim, à distancia, percebemos que aquele dia foi um desses? Olhando para mim, ali numa sala toda a cair, de carteiras de madeira, daquelas com uma tampa, e banco preso, formando uma peça única, não podia sequer imaginar quantas vezes iria ter primeiros dias, nas décadas seguintes. A pessoa nota que já passou muito tempo e muita vida quando fala assim em décadas. 

Aquela turma foi especial, lembro-me daquela gente até hoje, e, muito de vez em quando, ainda nos encontramos. O 10ºQ, se não me engano. A melhor turma que já tive. A Teresa, a que chamávamos "mãe", por ser mais velha e maternal connosco. O Pedro Costa, portista habilidoso no futebol e maluco por música, que hoje é dos maiores especialista e divulgador de jazz deste país, havia a Cristina Hollywood, chamavamos-lhe assim porque queria ir do Outeiro da Polima para a América e ser estrela de cinema; o Mário Rui, que era a alma da festa ali, o brilhante Marçalo com o seu humor - ainda hoje falamos muitas vezes - e toda uma galeria de personagens, as "católicas" Francisca e Filipa, a bem disposta Catarina, o brilhante Luis Catarino, grande fotografo...e tanta gente que transformou aquela turma em algo especial, sempre a acabar o ano com um arroz à valenciana, numa cave, ali para os lados do shopping das Palmeiras. 

Foi com eles que cantei, pela primeira vez, o Primeiro Dia. 

"E entretanto o tempo fez cinza da brasa e outra maré cheia virá da maré vaza...", como diz a música. Quantos primeiros dias terei ainda? Sem saber que o são, à partida sem fazer ideia? Não faço ideia, lá está, mas sei que, se me avisassem na altura, também não ia acreditar. 

Venham eles. Enquanto forem os primeiros, nenhum deles será o último.

 

 

 

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3 comentários

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De Cátia Rodrigues a 16.08.2016 às 10:17

Adoro!!!
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De Anónimo a 16.08.2016 às 12:30

Ah o liceu de Oeiras. Mitico. Tb ali passei muitos e bom momentos.
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De Madalena a 16.08.2016 às 18:25

Que texto tão maravilhoso, com uma energia primordial, como no início de Tudo. Renascemos ao confrontar os monstros que nos desafiam, enquanto nos ancoramos nos deuses que nos elevam.


https://www.youtube.com/watch?v=zRJrUmG2S6E

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