Domingo, 3 de Janeiro de 2010

No excelente Sushi Leblon, de Mónica Marques, dei com este exercício. Desatei a escrever e acho que podia continuar por dias e dias. Para já, ficamos assim.

 

A vida divina.

 

Quando os meus filhos nasceram e das duas vezes cortei o cordão umbilical, em êxtase. Naquele dia em que, pela 1ª vez em cada ano, passa dos 30 graus. Aquele tinto que é mesmo um prazer. Quando o Billy Crystal diz a uma Meg Ryan, que a seguir morde o lábio: "I came here tonight because when you realize you wanna spend the rest of your life with someone, you want the rest of your life to start as soon as possible". Quando canto sozinho no carro, muito contente. Quando canto sozinho no carro, mesmo triste. Quando ando de t-shirt na rua, nos primeiros dias depois do Inverno. Quando caem as primeiras chuvas, no Outono, e cheira a terra molhada. Quando leio alguma coisa que me enche as medidas, e sempre que releio.

O Chico Buarque a cantar. E o Djavan. Quando na praia, depois de um mergulho, sinto as gotas da água no corpo, e o sol a secar-me, devagar. Quando se chega ao campo, na futebolada de sábado de manhã. Chocolate. O Douro. Quando me compreendem. Tangerina. Aquela loja da Vida Portuguesa, no Chiado. E a Omlet, numas escadinhas por ali. Sushi. Escolher música para o Ipod, e depois ouvir quase sempre as mesmas. Um supermercado chamado Amish, em Nova Iorque. Olhar para ti e estar tudo bem.

Um golo da nossa equipa no último minuto, a decidir um jogo. E todos os golos da nossa equipa. Os meus filhos a falarem. O Rio de Janeiro. Os meus discos antigos. Quando, há pouco tempo, me disseram: o médico diz que a operação correu muito bem, não podia ter corrido melhor. Fogo de artifício. Quando me dizem que gostam de mim. A luz do sol quente no mar. Paris. Aquela parte da Burguesinha, do Seu Jorge, em que o público é chamado a cantar (eu canto sempre). Bach. Sorrir, quando acontece alguma coisa boa "que só eu é que sei". Café, quando é bom. Quando me aceitam. Aquela dor muscular que mostra que fizemos realmente exercício. "A Cidade de Deus". Água quando tenho sede. Andar de comboio. Um abraço.

Sempre que sou tão feliz na minha profissão. Sexo. Confirmar uma amizade. Aquelas maçãs verdes, rijas. Roma. Querer aprender a tocar viola. Correr na praia ao fim do dia. Quando um filme mexe comigo. Lisboa, junto ao Tejo, com sol. E não só. Uma recepção calorosa, à chegada a um aeroporto. Estrear roupa. Quando passeio pela Fnac, ou pela Bulhosa. Quando matamos a saudade. Quando me fazem rir à gargalhada. A lareira acesa. Barcelona. Conversar, em bom, muito tempo. Beijos na boca, com língua.

O Roberto Carlos, o José Cid, as Doce, os Wham, o Nik Kershaw, os Cutting Crew e todos os outros Guilty Pleasures da música. "Carne Trémula", do Almodóvar. A Tasquinha do Oliveira, em Évora. E o São Rosas, em Estremoz. Quando confiam em nós. O Fado de que gosto. A voz dos meus filhos. E a voz dos meus filhos no rádio. Pessoas genuínamente simpáticas, educadas, bem formadas. A maneira como o Messi conduz a bola. Intimidade e afecto. "A Sombra do Vento". Caetano e Gil a cantarem o "Haiti" e "Desde que o Samba é Samba". Quando há um grande jogo na televisão e posso ver. Quando a minha comida está boa e agrada a quem prova. Conduzir. Iogurte Natural Açucarado. Uma boa surpresa. Gostarem de nós. E gostarmos de gostar de quem gostamos. Quando os meus filhos me dão a mão, sempre que estendo a minha para eles, no carro. E sempre que estamos de mãos dadas, seja onde for. Quando me comovo. Deitar-me na minha cama feita de lavado. O despertador tocar, mas ser fim de semana e poder voltar a dormir. Os meus discos do Prince, dos Beatles, do Stevie Wonder, do Michael Bublé, dos Pearl Jam, dos U2, do Sérgio Godinho, da Mafalda Veiga, do Jorge Palma, dos Xutos, dos Presuntos Implicados, dos Marillion, dos Snow Patrol. Quando está tudo a correr bem. Quando faço alguém feliz. Viajar. Um cheiro bom. Marcar um golo. Sempre que te sinto feliz.

Quando nos ajudam, de coração. O balanço numa rede. O'Neill, Pessoa, Al Berto e Herberto Hélder. Quando o dia nasce e promete. Andar de bicicleta. Quando se ouve o som de uma mensagem a chegar e adivinhamos logo de quem é. Estar com os amigos. Coca-Cola. Quando uma fotografia nos sai bem. Quando se consegue resolver problemas, ou quando eles se resolvem, seja como for. Férias. Quando se faz as pazes. Entrar na minha escola ou passar na rua onde cresci. O riso dos meus filhos.

Quando o ar é puro. Quando tenho tempo. Adivinhar o que vai fazer o condutor à nossa frente. Quando sinto que cumpri um dever. "Somewhere only we know". Quando não me fazem mal. Ver Lisboa do avião, à chegada. Bolas de Berlim na praia, com sabor a infância. Copenhaga. Um sorriso. Ler o jornal desportivo no dia seguinte a uma vitória. Escrever. A Paula Toller a cantar "Os outros". Fazer uma sesta. Pensar na ideia de ir à Normandia, à Patagónia, a Berlim, Buenos Aires, Açores. Ver o puto a treinar. E a Mafaldinha a dançar. Aquele restaurante do Fondue no Dafundo. Londres. Leite quente com Ovomaltine. "As velas ardem até ao fim". Quando se faz a árvore de Natal. Segredos bons. O cheiro da castanha assada. "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain". O Hawaii. Noites de Verão no Alentejo. O aconchego quentinho depois de um duche no final de um dia de praia. O Amor, em todas as suas formas.

A Rosário Flores a cantar "Água y Sal". Não fazer nada. Quando aprendo. Quando toca o Hino antes dos jogos, ou com um atleta no pódio. Quando, à beira mar, num dia quente, nos tocam aqueles salpicos quase invisíveis que o vento traz.

 

Quando chegas.



Publicado por P às 12:23 | Link do post | Comentar

64 comentários:
De Isa Sena a 3 de Janeiro de 2010 às 13:15
Pronto...fiquei de lágrimas nos olhos...Sinto-te apaixonado...novamente...por tudo... e pela vida...Estarei certa?


De Marisa a 3 de Janeiro de 2010 às 13:17
Pedro, acompanho-te (vos) há anos e posso dizer que, com toda a certeza, gosto de ti. Como profissional e como ser humano.

Só te faltar destacar uma coisa: cães ;)

Beijinhos.


De Vera a 3 de Janeiro de 2010 às 13:19
Lindo!! Vou lá ver...e ver se me inspiro :-)
Bom Ano Novo!!!


De Anónimo a 3 de Janeiro de 2010 às 13:23
Pedro,
desta vez superaste-te.
Muito Bom, Parabéns.
Bom Ano


De Pedro Reis a 3 de Janeiro de 2010 às 13:25
Uma vida divina de facto, e com tantas experiências ainda por testar...
Uma longa vida a quem merece!
Abraço.


De Sara Gonçalves a 3 de Janeiro de 2010 às 13:32
Divinal... Para quê comentar mais? Apenas dizer que ser destinatária desses "quando te sinto feliz" e "quando chegas" deve ser razão mais do que suficiente para fazer o mesmo exercício de escrita. Com uma alma assim, 2010 só pode ser extraordinário!


De Ana a 3 de Janeiro de 2010 às 13:35
Lindo. Mais que perfeito. As coisas simples do dia a dia que enchem a alma duma forma tão plena.
Bom 2010. Beijinhos


De Sara Gonçalves a 3 de Janeiro de 2010 às 14:03
E outra coisa muito importante! Que em 2010 haja uma Sally que te diga: "You see? You say things like that and you make it impossible for me to hate you. And I hate you, Harry."


De sara a 3 de Janeiro de 2010 às 14:09
Bonito!Gostei do post, uma boa recolecção de momentos.


De Sayuri a 3 de Janeiro de 2010 às 14:35
Muito bonito, tanto um exercicio como o outro. Serve para constatrmos o quão rica a nossa vida é, mesmo que pensemos o contrário! Bom ano!


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Família. Amigos, todos. Manhãs. O cheiro a terra molhada. Cantar no carro. Praia, sempre. Ligar o microfone. Ler e pensar: é isto mesmo. O Amor. Verão. Lugares onde voltar, sempre. Tinto. Um passe de trivela a rasgar a defesa. À mesa com quem se gosta. Chuva na janela. Chocolate. Sexo. Água fresca. Dever cumprido. Red Pass. Ser justo. Olhares que decidem. Aprender dos outros e de mim, todos os dias. Música. Ver bola, falar de bola, jogar à bola. Ler, antes de dormir. Todos dos dias trazem qualquer coisa... diasuteis@sapo.pt e pedroribeiro@me.com
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