Hoje à noite, na Luz, serei aquela criança que passava horas a jogar à bola na rua, mesmo nos dias em que não havia mais ninguém na praceta. Que sabia o nome de todos os jogadores do plantel, todos os anos. Serei aquele puto que se meteu no Comboio, apanhou o 50 e foi à Luz prestar provas, aos 10 anos, para depois acabar tudo em lágrimas. Serei aquela criança que chorou de tristeza nas derrotas mais amargas e de alegria nas alegrias mais extremas. Serei aquela criança deslumbrada, de cada vez que entrava na bancada, sentia o cheiro típico do tabaco em redor; e ficava a olhar, horas a fio, a ver o estádio a encher-se para mais um jogo. O puto que queria jogar como o Carlos Manuel, ao lado de Bento, Néne, Chalana, João Alves, Humberto Coelho...entrará hoje no relvado da Luz, de águia ao peito, supremo privilégio, sonho impossível de toda uma vida.
O que sinto agora não é mero nervoso miudinho, é uma noção de privilégio único, uma gratidão gigante para quem me convidou, uma alegria só comparável, lá está, à alegria de uma criança.
Pai, estás a ver daí de cima? O teu filho hoje vai ser jogador do nosso Benfica.
Não saias a 10 minutos do fim, porque senão corres o risco de não me ver jogar, e isto é uma vez na vida.
:-)