
De vez em quando lá dou com pessoas que olham de lado para quem, como eu, confessa abertamente que adora futebol.
Parece coisa menos merecedora de respeito, às vezes parece que, para algumas pessoas, gostar de futebol é ser-se, obrigatória e muito naturalmente, uma criatura abrutalhada, desprovida de critérios de estética ou de discernimento para saber reconhecer o que é, ou pode ser, uma arte.
Eu sempre amei o futebol. Lembro-me que quando não havia ninguém na “praceta” ou no “gradeamento” (como chamavamos a um parque de estacionamento nas traseiras da minha casa) eu ia sozinho jogar. Baliza a baliza, para trás e para a frente, sozinho sim, guarda-redes, defesas, médios e avançados; porque nessa noite o Benfica ia jogar ao pelado do Penafiel e eu ia…”ensaiar”.
Jogava sozinho e relatava baixinho. Com uma bola de plástico a imitar as “bolas oficiais.”
E balizas com duas pedras a fazer de postes.
Desde muito pequeno que, para mim, só havia um brinquedo a sério: uma bola. Não preciso de mais nada.
Parti um dedo a jogar á bola e, durante umas horas, apesar das dores, não disse a ninguém, não fossem proibír-me de jogar. Até que a minha professora primária me encontrou com o dedo inchadíssimo e me levou ao Hospital de Cascais.
Antes de sair do Hospital, lembro-me do enfermeiro se rir quando lhe perguntei se aquilo (uma tala no dedo) queria dizer que eu não podia jogar à bola. Ele riu-se, não percebeu que eu não podia estar a falar mais a sério.
E os cromos, colados com cola cisne?
A Bola a 7$50 , e mais tarde a 12$50. À 2ª, 5ª e Sábado. E o
Record ao Domingo, à 3ª e á 6ª?
O maravilhoso
Off Side (
Magazine á 6ª,
Match à 2ª ou 3ª não me lembro bem). Ler tudo.
As gigantescas crónicas dos jogos no jornal A Bola então eram todo um ritual de prazer. Carlos Pinhão, Homero Serpa, Vitor Santos, Cruz dos Santos, Aurélio Márcio. Tudo em formato de jornal gigantesco, em tinta que ficava nos dedos.
A crónica do Benfica-Amora continua na página 14.O Futebol é, sim, muito importante para mim, claro que é, desde sempre.
Lembro-me que ia ao futebol com o meu pai, mas muito mais com amigos do meu pai que concordavam em levar-me. Assim vi todos os jogos do Benfica europeu de 1983 na Taça UEFA, na Luz. Na final perdida, fogo de artifício por acender no topo sul, sai a chorar. Sim, a chorar. Tinha 12 anos e aquilo era impossível, não podia estar a acontecer. Foi aliás a época em que vi o melhor Benfica da minha vida. Bento, Pietra, Humberto Coelho, Bastos Lopes, Alvaro, Veloso, Stromberg, Carlos Manuel, Diamantino, João Alves, José Luis, Shéu, Néné, Filipovic, Chalana…
Um arraso, com Erickson no banco, a revolucionar tudo, tranquilamente.
Um dia vi Portugal ganhar 2-0 à Polónia, na Luz, uns meses depois da Polónia ter sido 3ª no Mundial de Espanha. “Nunca mais vou ser o Boniek” disse eu aos colegas da escola no dia seguinte, todo contente.
Não viveria sem futebol. É algo que está em mim, na essência do que sou, e sim, se num zapping passar por um jogo, digamos…entre as selecções do Qatar e do Bangladesh, é certo que fico a ver. Posso não ver tudo com certeza, mas não passo logo à frente…é sempre: o
ra deixa cá ver isto um bocadinho…Lembro-me bem de algumas idas á bola bem amargas…levar 7-1 do Sporting, ser eliminado pelos toscos do Dukla de Praga, perder 1-4 com o Liverpool, perder as meias finais do campeonato da Preparatória Conde de Oeiras num penalti que não foi…(não foi mesmo!)
Quem gosta de futebol a sério, sim, fica com uma certa azia quando perde.
Mas felizmente há o contrário. Quando o nosso clube ganha…Quando se é campeão. Meu Deus quando se é campeão....
Quando se joga bem numa futebolada com os amigos. Quando se faz um grande golo. Quando a bola entra! Um golo da nossa equipa, em qualquer jogo, mas sobretudo num jogo decisivo. Uma vitória da nossa selecção. O cantar o hino antes do jogo, e naqueles minutos da “Portuguesa” pára tudo, não quero saber de mais nada, vai jogar Portugal e está a tocar o hino.
Quando perdemos a final do Euro 2004 apanhei um dos maiores desgostos futebolísticos da minha vida. Até porque quando se perde porque os outros são melhores, ok, custa mas passa rápido. Agora naquele dia doeu por tudo: era em casa, a nossa equipa era melhor, era a maior das oportunidades de sermos realmente grandes e foi uma azelhice. Nesse dia recordei o longínquo Benfica-Anderlecht de 1983. E quase chorei, sim.
O Futebol tem alias muito de vísceral, de físico, orgânico. E permite uma liberdade de expressão, um descontrole emocional, um escape ás regras sociais aceites em todos os outros minutos da vida menos naqueles 90 que é muito libertador!
Lembrei-me de refletir um bocadinho sobre o que é o futebol para mim, depois de ter visto o DVD que encomendei há mais de 3 meses (esteve esgotado, mas chegou 6ª, via amazon) com os melhores momentos da Premier League.
Ao ver um golo do Bergkamp, de uma elegância e de um nível de genialidade que só quem adora futebol consegue reconhecer como tal…pensei: é por isto. É que não há nada como isto. É magia.
Revi esse golo uma meia dúzia de vezes, em contemplação do divino revelado numa finta e num remate de pé direito.
I love this game? É pá, sim.