Todos os dias trazem qualquer coisa.
22 de Maio de 2013

Não adiar o amor. Uma reconciliação ou uma declaração. Não adiar mais um gesto que seja bom. Não parar na dificuldade, no medo, naquilo que não é o nosso coração a ditar, e que nos atemoriza. Não pôr nada de decisivo dentro de nós à espera tempo demais. Não adiar o viver a vida o melhor que se puder. Dar valor a quem gosta de nós, exercermos essa gratidão com humildade e autenticidade. Não adiar um mergulho no mar, dar as mãos a quem se ama, não dar nada nem ninguém por garantido, não adiar o dia em que se é honesto para sempre, sem trair mais ninguém , a começar por nós próprios. Não adiar o cheio da terra molhada de manhã, o brincar com os filhos, o ralhar-lhes quando é preciso. Não adiar mais aquele telefonema que estamos há que tempos para fazer a uma pessoa de que gostamos, seja qual for a forma desse gostar.

Não adiar o momento de dizer alguém que o amor começou ou acabou. O dizer bom dia. Não adiar nenhum dos lados da vida, porque a vida esgota-se e só Deus sabe o que virá depois, e se.

Hoje morreu o Pai de um meu grande amigo, daqueles de toda a vida; e dei comigo a pensar que passamos demasiado tempo distraídos na nossa bolha da pressa, da falta de tempo, da falta de atenção, da energia desperdiçada no acessório ou no que não interessa mesmo nada e, um dia, acabou. Quase sempre cedo demais, para as contas que fazemos. Viver em pleno é estar à altura dessa bênção, a cada dia. 

Não adiar tudo o que pode fazer de nós melhores e bem aos que nos rodeiam.  Que a vida não espera.

Um enorme abraço ao Pedro e à família neste dia terrível. 

publicado por PR às 12:57
08 de Maio de 2013

Não sei se existe um Céu. Ou um sítio qualquer com outro nome, para onde se vai, depois. A existir, confio que terá, ao menos, wireless. Assim sendo, espero que possas ler isto, meu Pai. 

Hoje o iPod esbofeteou-me com aquela música do razoavelmente foleiro Fábio Jr, a canção "Pai Herói". E como sempre, quando isso acontece, fui-me abaixo.

É incrível como perdoamos e nos perdoamos, com o tempo. Não perdoei (falha minha, até porque perdoar ou não é miseravelmente igual) a tua violência com a mãe, mas desconto, à distância, vendo-te hoje, daqui, tão humano, tão afinal de contas aflito e frustrado...saiu-te tudo ao contrário não foi? Foste cruel, tantas vezes. Tonto, quase sempre.

Percebo hoje que sim, é possível sentir saudades do que não se teve, e saudades de ainda ir a tempo de fazer a nossa parte toda, para que tudo fosse melhor. Ou só diferente, que a esperança é uma forma de ingenuidade sonhadora, muitas vezes contra todas as evidências em contrário. 

Sabes? Na segunda-feira queria ter-te tido ao meu lado na bancada. Não para me dares alento a mim, mas para eu te acalmar o teu ataque de fúria. E dizer-te que ainda nada estava perdido, tem calma; agora seria eu assumir um tom paternal, parece que é a ordem natural das coisas, acabarmos pais dos nossos pais. 

Por estes dias queria contar-te da Maria e os dentes a romper. Do Gonçalo e a prova de português que correu bem. A primeira comunhão da Mafalda. Tudo o que aconteceu e tudo o que está a acontecer na minha vida. Os dias em que o chão me foge. Perguntar-te: "O que é que eu hei-de fazer, papá?"

Sei que não eras o Pai ideal para eu perguntar, e muito menos para me responder a resposta boa, aquela resposta que faz sentido e ilumina o caminho. Mas não tive outro pai, só tu. Não tenho ilusões. Hoje a música tocou, e chorei de novo. 

 

Pai, eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Pra pedir pra você ir lá em casa 
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar
Pai, você foi meu herói, meu bandido
Hoje é mais muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho 
Você faz parte desse caminho 
Que hoje eu sigo em paz


Nem percebo muito bem porque mexe tanto comigo, tendo em conta aquilo que fomos um para o outro, enquanto cá andaste. Quando me despedi de ti, naquela sala dos cuidados intensivos daquele hospital em Coimbra, onde todas aquelas pessoas de bata eram figurantes fantasmas e só lá estava eu e tu, e tu eras ali o avó, igual a ele, velho, velho velho, nunca mais me vou esquecer, tão velho me pareceste, tão frágilzinho, tão criança perdida, aflita. Não sei se me sentiste. Não falámos, estavas sob o efeito dos medicamentos e da vida toda vivida e não cumprida, e tudo isso se misturava ali, na forma de uns sons que não chegavam a ser palavras, não falámos, não sei se percebeste que o teu filho Pedro estava ali. O único dos teus três filhos que foi lá despedir-se, sim, porque eu sabia bem que era a última vez que te via com vida, uma vida fininha e frágil, a esgotar-se como a areia numa ampulheta, o tempo está a contar, pai, estás a ouvir, vim saber de ti? perguntei, sem resposta.

Queria que no dia 15 pudéssemos ir os dois ver a Final. Lembras-te quando saí da Luz em lágrimas por causa do golo do cabrão do Lozano? E tu me disseste, enquanto passávamos junto do fogo preso, que preso e apagado ficou e que estava montado naquele placar do totobola, topo sul da antiga e eterna Luz? 

"Eles é que ganham milhões e tu é que estás para aí a chorar?". Hoje percebo que eras tu a não querer desatar a chorar, querias tanto ver o Benfica ganhar uma final, e que eu visse como tu tinhas visto antes, há tanto tempo. Mas nunca deixarias cair a tua capa de super fanfarrão. Digo-o sorrindo, para que saibas.

Queria levar-te a Amesterdão. Queria que tivesses conseguido falar, que tivesses conseguido ser melhor pessoa, e que eu tivesse ajudado. Pai eu fui lá, eu quis saber. Foi para meu conforto ou para o teu? Lembras-te das vezes que te levei comida, e tu sozinho em casa, dias a fio sem sair? A vida tão escura, os dias feitos de ressentimento e raiva já meia balhelhas. E lembras-te das pouquíssimas vezes em que até parecia que éramos possíveis, pai e filho, em bom?

 

Pai, me perdoa essa insegurança
É que eu não sou mais aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu

 

Sabes, Papá, porque não me aguento, quando esta música toca? Esta semana, um vizinho meu amigo lembrou-me as palavras do padre Tolentino Mendonça, que diz que "Somos mesquinhos, banais, egocêntricos, ressentidos. Se não tomamos consciência disso, não conseguimos a transformação. A primeira condição da transformação é a nudez. Ser capaz de contar a sua verdade." Quem me dera ter conseguido isso contigo. Termos conseguido isso um com o outro. A nossa verdade. Ele também diz isto: "Sermos nós próprios é percebermos o caminho da imperfeição. O que nos mata é essa perseguição da perfeição. Não temos de ser perfeitos. Temos de ser inteiros."

Gostava de ter falado contigo sobre isto. Podia ser que houvesse aí um caminho para nós. Que tivessemos conseguido o milagre de sermos ao menos inteiros, um para o outro.

Afinal fomos o que fomos, agora eu dou comigo a ouvir esta maldita música de uma novela antiga, do tempo antigo em que existias e eras horrível, e a pensar: não te conheci. Não deu. Mas tenho saudades tuas. Ou saudades de que existisses, pelo menos. E eu pudesse ter a ilusão ingénua de ser possível trocarmos umas ideias. Correu tudo mal, não foi? Tivéssemos tido nós a lucidez e a tenacidade para conseguirmos perceber, a tempo, aquilo que Dostoievski quereria dizer quando disse que "a maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz."

Não creio que tivesses chegado a perceber. Hoje, quando aquela música tocou, pensei assim: não foi naquele hospital, nem nas irreprimíveis lágrimas naquele gelado crematório em Rio de Mouro ou Rinchoa ou lá o que era aquele fim do mundo, nunca mais lá fui, nem conseguiria se quisesse. Foi hoje que fiz as pazes com a minha ideia de ti. Percebi porque fomos tão infelizes. E está tudo bem. Está tudo bem, papá. Ainda bem que tivemos esta conversa. Quando voltarmos a falar, vai correr bem, vai ser mesmo bom. Começaremos daí. E sim, vamos ganhar. Vamos sempre a tempo de ganhar tudo.

E seguimos o nosso caminho. Em paz.

 

publicado por PR às 21:35
29 de Abril de 2013

Há muitos anos que este texto habita a minha vida e as minhas sessões de Karaoke no carro. Mas nunca tinha visto assim. Maravilhoso.

 

publicado por PR às 14:23
25 de Abril de 2013

 

Sophia é que explicou tudo, melhor que toda a gente:

 

 

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"


Uma revolução que leva o rosto de um anti-herói, por isso o maior herói de todos, Salgueiro Maia.


"Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui."

 

Democracia antes de todos, já dentro de si, no carácter e na acção. Comandando soldados que eram, muitos deles, quase meninos. Em veículos no limite do combustível. Muitos de armas sem munição. Recebendo cravos nas ruas de Lisboa, em manobras militares que são uma festa das pessoas que vão para a rua, ver e sentir. Quem me dera lá ter estado!

Quando uma revolução se explica, na sua plenitude, por um poema, isso é Portugal.

Quando estragamos quase tudo a seguir também, numa bebedeira de algo tão novo e tão grande que se perde o pé.

Mas o essencial, o que tem de habitar para sempre a substância do tempo, é a Liberdade, enquanto valor maior. 

Liberdade para ser e respeitar os demais.

Liberdade e Esperança.

25 de Abril, sempre.

Sempre.

publicado por PR às 09:17
23 de Abril de 2013

 

Quanto mais conheço, deste Jovanotti, mais o respeito como artista e poeta.

Grande canção, texto certeiro.

publicado por PR às 07:17
22 de Abril de 2013

Lima, limão. Que golo. 

 

 

 

publicado por PR às 09:53
19 de Abril de 2013

 

 

Ser. Benfiquista.

publicado por PR às 20:33

publicado por PR às 12:54
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