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Dias úteis

por PR, em 13.12.17

Quando a minha filha Mafaldinha me surpreende, comentando que anda a ouvir uma música com uma letra incrível, e que eu devo conhecer.. E saca do telemóvel e põe a tocar no carro, ao meu lado, o extraordinário, e lendário, "2º andar direito", do Sérgio Godinho. E vamos os dois pela A5 a cantar. E, depois, Jorge Palma, e Rui Veloso, e ela sabe, como eu, as palavras todas, e sorrimos, cúmplices, com as linhas e entrelinhas das letras. Deixo-a em casa e venho tão feliz, no carro, a pensar que esta miúda é um tesouro e no bom que é ela dar valor a estas canções e a tudo o que elas vêm melhorar na nossa vida.

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Palmas.

por PR, em 07.12.17

O meu amor tem lábios de silêncio
e mãos de bailarina
e voa como o vento
e abraça-me onde a solidão termina

 

Ontem, ao chegar a casa, da apresentação do meu livro, liguei a televisão, e ali estava, Jorge Palma, num cenário inédito: um piano no meio de uma redacção, e ele ali, com as musicas e as palavras que trago comigo há tantos anos. O disco "Só" é um dos discos da minha vida, e parece que vai ter agora uma versão gravada ao vivo. Lembro-me, nos idos de 91, de um especial que foi feito no CMR - Correio da manhã Rádio -, onde eu dava os meus primeiros passos neste oficio. A estação fazia sempre especiais de uma hora em que mostrava os discos novos, e, naquele caso, a Judith Meneses e Sousa, hoje jornalista na TSF, lendária repórter parlamentar; baptizou o especial de "Amores de Bairro". Bem.

Esse disco abriu-me, em definitivo, para a obra do palma, que, para mim, até então, era basicamente o "Deixa-me rir" e o "Lado errado da noite". 

Depois do "Bairro do Amor" dei por mim naquela demanda apaixonada, a descobrir tudo: as canções todas, o escrever do Palma, a sua personalidade de contrastes, entre a poesia e o degredo...e um dia apareceram-me aos ouvidos aquelas canções, despidas dos arranjos, agora era só piano e voz, e, meu Deus, que maravilha.

Ainda hoje volto muitas vezes ao Palma, e é sempre um calorzinho, percebo sempre que as canções dele estão, para sempre, na minha vida, e confesso que, ao vê-lo ontem na TVI, a tocar e a cantar, poucos dias depois de perdermos o Zé Pedro, que fez com o Jorge o Palma's Gang, pensei: o Zé Pedro, lá em cima, está a pedir para pôr mais alto.

 

Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

 

O Jorge Palma é um poeta, e um músico extraordinário. E guarda aquele fio invisível que une, num equilíbrio secreto, o voo puro das asas de anjo e a negritude de olhares nocturnos sombrios, como só é possível aos super heróis que sabem mais, muito mais, da vida, do que nós, os meros humanos. Mas...

 

..não há passos divergentes para quem se quer...
Encontrar

 

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Soube mesmo bem. 

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O Zé Pedro consegue a unanimidade que ultrapassa a da circunstância, e não há ninguém que não tenha uma palavra boa para ele. Ninguém, nem na calada da dor geral, destoa. 

E a razão é simples: o Zé Pedro foi a pessoa mais gentil, mais verdadeira, mais honesta, mais simpática, mais doce, foi uma pessoa boa, todo o tempo. Viveu, viveu muito e muito intensamente, soube aprender com tudo e só não saiu vivo desta maldita doença. Mas que deu uma luta do caraças, isso está à vista. Submissão, nunca.

A primeira vez que estive com ele, foi num programa chamado Top +, há muitos anos. Tímido como sou, foi naturalmente nele que encontrei a fresta de luz aberta para começar a conversar e a soltar alguma conversa coerente, de um miúdo que cresceu com os Xutos na sua vida, mas que via o Tim, o Gui, o Cabeleira e o Kalú ali ao pé, e tremia, e escondia-se,  não tendo sequer coragem de olhar de frente para eles. Mas com o Zé Pedro foi logo diferente, disse-me que tinha achado graça a um trocadilho qualquer que eu tinha feito num programa, umas semanas antes. Ele sorriu, aquele sorriso quente e solidário, aquele sorriso do Zé Pedro, amigável e seguro.

Desde esse dia foram muitos encontros, muitas entrevistas, e sempre manteve, não só o sorriso, mas sobretudo, vim a descobrir ao longo do tempo, uma cativante e genuína simpatia, serena de quem já conhece todos os lados e avessos desta coisa de viver, e sabe que somos todos iguais, nas nossas fraquezas, ilusões e misérias. E que vale a pena ser boa pessoa.

O Zé Pedro era muito boa pessoa, juntava em vez de dividir. Nunca lhe ouvi uma palavra menor em relação a quem quer que fosse, não alimentava intrigas, abominava mentira, procurava sempre o melhor: na vida, na música, no futuro, nas pessoas.

Já tenho saudades dele. De como ele me deu a conhecer musica nova tantas vezes. De como debatemos o nosso Benfica, outras tantas. Quando fui, na sexta-feira, ao Museu dos Coches, lembrei-me de como certamente ia sorrir perante aquele cenário tão grandioso, ele que odiava minutos de silêncio, tinha ali conversas de amigos à sua volta. O Zé Pedro foi um ser humano extraordinário. Foi mesmo. 

Aos Xutos, aquele forte abraço. Ergam escadas, partam muros.

Como sempre fizeram com ele, e, partir de agora, por ele. 

 

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Uma tristeza só.

por PR, em 24.11.17

Esta coisa de nos morrerem cada vez mais pessoas que nós conhecemos. Pessoas que se cruzaram connosco a dada altura, e outras que ainda no outro dia ali estavam, mesmo ao pé de nós.

Cada vez mais pessoas a desaparecerem-nos.  Cada vez somos menos. E o tempo passa e não nos encontramos, não ligamos, nada sabemos, e depois "porra, nem sabia que estava doente".

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Natal.

por PR, em 17.11.17

Não é bem o livro que eu esperava editar primeiro. Tanta gente me pediu, e agora uma editora chegou à frente e desafiou-me, vai acontecer: O Livro das Ribeirinhas, o Compêndio Possível.

Sai dia 06 de Dezembro, e foi divertido de escrever, num regresso a piadas, todas elas secas, de uma vida a chatear as pessoas com trocadilhos e jogos de palavras. Já fica,

Façam-me esse favor. 

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Do Amor.

por PR, em 11.10.17

Uma pergunta muito recorrente é se alguém acredita no Amor. Não no sentido de achar que vai resolver a sua vida sentimental ou se está apaixonado, mas num sentido mais largo, até filosófico. Acontece muito quando alguém é deixado, o desabafo "já não acredito no Amor". Mas há uma dimensão superior desta palavra especial, que ultrapassa o restrito sentido romântico para passar a ser pleno, na sua substância. O Amor de letra grande é aquele que não é determinado nem por paixão nem por contrato, nem por hábito nem pela razão.

É, simplesmente. 

E é nesse amor absoluto e que é tão instintivo como o é o acto de respirar que trata este texto. Algo que não é ensinado, simplesmente é, em todo os eu esplendor, mesmo antes de ser possível uma palavra.

Tenho esta reflexão no dia em que chego cansado do trabalho e, ao entrar em casa, surge a minha filha de 7 meses, a flutuar num sorriso de boca aberta, de alegria em sol maior. Um iluminar de um pequeno rosto que representa uma alegria pura, que ouso puxar para o significado lato do Amor. Porque é assim que o interpreto. A Carminho faz hoje 7 meses e sim, eu quando a vejo tão genuinamente feliz por nos ver, a mim, à mãe, aos irmãos, eu chamo a isso Amor. O Amor maior. Puro, sem filtro, ainda mais valioso porque não está aprendido nem ensinado, de outra forma que não com o afecto diário, o instinto protector, a brincadeira, o cuidado com tudo o que é a vida dela e a sua vivência diária. Está na troca de olhares durante as refeições, enquanto se canta o "...barqueiro leva o barco ao Mira", está na galhofa no banho, com ela a agarrar os patinhos e já tão crescida a equilibrar-se, sentada na banehira; está no jogo co "cu-cu" de aparecere  desaparecer do seu olhar, que alegria tão pura!

Este amor não tem comparação com nada. É maior que tudo.

É tudo. 

É.

 

 

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Vida de Cão. 20 anos.

por PR, em 08.10.17

O Homem que Mordeu o Cão faz 20 anos, e o Nuno juntou todo o universo da rubrica numa noite de Coliseu dos Recreios. A sala encheu para mergulhar no planeta Markl, e foi emocionante esse cruzamento de memórias, entre o publico e nós todos, que, de alguma forma, fomos tocados por este marco na história da rádio. Uma rubrica de rádio que atinge 20 anos, embora não seguidos, e que dá origem a não sei quantos livros, e que se mantém naquele patamar único das coisas que já foram muito importantes para as pessoas e que ainda o são. È antigo e é novo, ao mesmo tempo. Tem 20 anos e habita no tempo presente, como se não tivesse passado algum.

Para mim, que estive na génese da coisa e estou ali, diariamente, com o Nuno, foi especialmente tocante. Foi impossível não pôr em perspectiva estes 20 anos, e o tempo todo de amizade com o Nuno, que começou bem antes daquele 6 de Outubro de 97. 

E, de repente, estamos nos bastidores, á conversa, a Lamy, os Cebola Mol, o Bruno, o Ricardo, a Maria.E temos os testemunhos, em video, porque não puderam ir lá, do Malato e da Vanda. E depois aquilo tudo é um melting pot de memórias cruzadas, fases tão diferentes do nosso trabalho e da realidade de cada um, que parece uma reunião de antigos alunos. Sort of.

E a lembrança do programa de televisão que fizemos, das temporadas no Vilaret, a digressão pelo país a fazer o espectáculo, aquela tarde em que ouvimos aquilo em que tinham transformado a nossa rádio, nunca mais me esqueço, eu, o Nuno e a Maria, a ouvir a Comercial, no Algarve, os olhos molhados de tristeza e revolta. 

E lembro-me de quando o Gimba fez o videoclip com o genérico, e quando começámos a perceber, nos primeiros tempos da internet, que aquilo era uma rubrica de culto e que era especial. Como foi, Como é.

Esta noite de Coliseu, teve tudo o que o Nuno é: génio e desatento. Sem medida e metódico ao mesmo tempo. Um miúdo e, ao mesmo tempo, um senhor. Aqueles olhos a brilhar, tão contente, tão bom de ver, tão especial estar ali, ao seu lado, quando antes, como sempre.

O Nuno é uma das melhores pessoas que há. E merece tudo de bom. O que aconteceu na sexta-feira foi, por isso, especialmente emocionante. Porque foi justo e aconteceu no tempo presente. Não foi preciso uma homenagem de carreira, um especial daqui a muitos anos do género "lembra-se deste senhor?".

Não. Foi quando teve de ser, com a lava a borbulhar ainda, num rio incandescente e bem vivo de criatividade.

20 anos de Homem que Mordeu o Cão. Parabéns, Nuno.

E obrigado por tudo. Até amanhã, no estúdio, outra vez.

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Pronto.

por PR, em 06.10.17

Agora não há sombra nenhuma. A vida é só para viver, em paz. Justiça foi feita. 

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A tragédia catalã.

por PR, em 02.10.17

Assisto, com interesse e receio, aquilo que está a acontecer na Catalunha. Parece-me que, entre os políticos mais radicais da Catalunha, e o poder central de Madrid, há boas doses de demagogia, cada uma com os seus perigos próprios, e que a situação se tornou incontrolável. Julgo que já houve um tempo em que seria possível aprofundar aspectos da autonomia da Catalunha, sem ter de desagregar o estado espanhol. Agora julgo que é inevitável essa separação. 

Esta situação, e a forma como ela se descontrolou, recorda-me, uma vez mais, como vivemos tempos em que fazem falta estadistas. Políticos que tenham o bom senso e sabedoria de quem conhece a História. Líderes que saibam antecipar os movimentos sociais e suas consequências, se se lidar com a sociedade como quem lida com um ficheiro excell, e ainda mais se se ceder à demagogia fácil para se agradar, com vistas curtas, ao restrito publico de fieis mais próximos. Vejo os argumentos de uns e outros e depois penso nas palavras de Vargas Llosa, e concluo que era preciso ter sido muito mais prudente, de todos os lados daquilo que é, agora, uma guerra. 

E depois é a violência gratuita, perfeitamente grotesca numa Europa do século XXI, numa cidade como Barcelona, que sempre foi de vanguarda e agora parece um anacronismo explosivo que não tem sentido. Policia e militares a carregar sobre civis, sangue derramado nas ruas, um perigo latente para os próximos anos, e talvez gerações, de catalães...e espanhóis. Olha-se para a forma como o Estado espanhol lidou com isto e pensa-se: quem quer ser governado por um Estado assim?

Adoro Barcelona, admiro este povo e esta ciadde, e tudo isto é uma dor. 

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Um sonho tornado realidade. Olhar para lá das audiências, das grelhas de programas, de nós próprios. Pensar no que ficará, depois, para quem vier. Um estúdio de rádio com som e imagem na sua génese. Rádio iluminada, sem sombras. E, claro, uma equipa que brilha com uma luz que é sua e muito própria. Uma sorte do caraças poder fazer parte e viver isto.

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