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Itália, hoje.

por PR, em 24.08.16

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O medo. Aquela noção de que um sismo não é possível prever e estamos todos nesta roleta russa, a torcer para que não seja aqui, da próxima vez. A vida a mudar de repente, tudo do avesso. Ou o fim. Horrível. 

Imagens da Ansa

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Como assim, fracasso?

por PR, em 19.08.16

A ligeireza indignada que leio em tanto sitio sobre o "fracasso" olímpico tuga, impressiona-me.

Vamos lá ver...A esmagadora maioria dos portugueses não sabe, nem quer saber, do Badminton, da Canoagem, do Voleibol. Não tem uma pista, vaga que seja, sobre o que é o Taekwondo, as regras do Judo, como é uma prova de Vela ou o que é a Ginástica de alta competição. Não raras vezes, olha com ignorante condescendência para quem pratica outro desporto qualquer sem ser futebol. Não faz ideia sobre quem são os melhores do mundo em qualquer dos outros desportos. Ou quem são os campeões nacionais, europeus ou mundiais. Não interessa. Não tem ideia nenhuma sobre quem são os atletas do Ténis de Mesa ou do Triatlo. "Não ganham medalhas, não prestam para nada".

De quatro em quatro anos, "é uma vergonha", os atletas são uns "chulos", que vão fazer "turismo à nossa conta".

Impressiona-me esta coisa fácil que teclar indignações e razões, sem saber do que se fala: quem são os atletas, o seu percurso, as condições de treino, a falta de uma política integrada de alta competição, os sacrifícios feitos por grande parte destes atletas para poderem competir, num país que passa quatro anos a ignorar aqueles a quem "exige" depois medalhas, de cada vez que há Olimpíadas.

Toda a gente gosta de ganhar, para que depois cada um possa reclamar como sua cada vitória.Não gosta de desporto, nem sequer de futebol. Gosta que o seu clube ganhe. Daí a clubite também manchar muitas das análises que são feitas à prestação dos atletas, num chocante exemplo de falta de capacidade critica para lá da boçalidade fácil.

Eu acho que há com certeza matéria para análise, e para critica, nesta participação portuguesa nos Jogos, claro que há. Mas esta "justiça popular de caixas de comentários e redes sociais" faz-me mesmo impressão. Olhe-se para o desporto português e perceba-se a sua realidade, fora dos Jogos Olímpicos. Que recursos temos e não temos. Que competências existem ou não. O que há para aprender e ensinar em cada área. Como se pode melhorar o treino e a competição. Como se pode melhorar tanto na formação e orientação de novas gerações para outros desportos, havendo condições para os praticar,  E, mesmo assim, o básico de cada prova desportiva: a vitória nunca é certa, nem para os melhores. Nada garante medalhas. Isto é verdade para um Rui Bragança ou para uma Marta Onofre como para um Bolt ou um Phelps.

E estes não imaginam, não podem imaginar, o que seria a sua vida se tivessem de treinar e competir em Portugal. 

 

 

 

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Deus nos valha?

por PR, em 18.08.16

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Como um rumor de corrente forte, ao fundo, que não vemos mas adivinhamos pelo som vago que não pára, sabemos que a Síria continua a ser mais e mais arrasada, todos os dias. E que, ali, como no Iraque e Afeganistão, o poder do louco Estado islâmico continua pouco menos que imparável. E que os meandros da política internacional continuam os mesmos, escorregadios e hipócritas, cheios de danos colaterais, como esta criança aqui, atingida pelo raid russo de ontem, em Aleppo.

O que terá pensado ela quando ouviu o estrondo que caiu do céu em chamas? O horror que lhe secou todas as lágrimas possíveis e lhe congelou a expressão, num terror que lhe desfez a infância para sempre em pequenos pedaços, como um vidro estilhaçado que nunca mais é possível colar?

Isto está a acontecer.

Ontem já tinha ficado nauseado com a impressionante reportagem de Henrique Cymerman sobre as mulheres e crianças violadas e os homens decapitados por esse braço armado do Mal, chamado Daesh, uma espécie de encarnação da maldade da Idade das Trevas dos pesadelos para a realidade do século XXI. E eu nunca vou esquecer os relatos que ouvi, na primeira pessoa, num campo de refugiados na Macedónia, com famílias de olhar igualmente perturbador de tão triste, desorientado e sem esperança.

Esta imagem é um daqueles despertares da nossa espuma dos dias. Isto está a acontecer. Meu Deus, isto está a acontecer. 

E Deus, a propósito? Um amigo, crente como eu, dizia-me ontem que "Deus não tem nada a ver com isto". 

Eu acho que, se não tem, devia. Que multiplicar pães e transformar água em vinho, já foi chão que deu uvas, agora a urgência é real, não dá para metáforas. A luta contra o mal nunca está ganha, como se vê. Então e o Bem? Que força terá, ao dia de hoje? 

Pobre criança. Dá vontade de pegar nela, limpá-la, curar-lhe as feridas, procurar a família que ainda terá, dar-lhe uma terra de paz para poder crescer, em segurança e com dignidade. Longe deste nojo, deste genocídio, desta loucura.  Uma criança como as nossas, que teve o azar de nascer ali, naquele inferno. Uma sociedade que não trava esta praga maligna, uma civilização que permite este horror, só pode ter ser vista assim, com o olhar desta criança: vazio de esperança, incrédulo, só cheio de tristeza. 

 

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Quantos foram os primeiros dias?

por PR, em 16.08.16

Estávamos algures no arranque do verão de 88, era uma ultima aula de Psicologia, no Liceu de Oeiras. A professora era nova e desempoeirada, e naquele dia, o Pedro Guedes levou a viola. Foi nessa aula que ouvi, pela primeira vez, "O Primeiro Dia" do Sérgio Godinho. Fiquei encantado com o engodo da melodia, ali no refrão, a pedir acompanhamento. Toda a gente cantou quando o Pedro fez, como no original , aquela branca no fim, aquele convite à frase "hoje é o primeiro dia do resto da tua vida", e, para mim, sim, ali foi um primeiro dia, mesmo. Desde então essa, e muitas outras - uma deu nome ao blogue e tudo - do Sérgio Godinho acompanharam-me em muitos dias da minha vida. Uns que foram primeiros dias, outros dias úteis, outros em que isto estava tudo ligado, outros que foram emboscadas, noites passadas, às vezes à espera do comboio na paragem do autocarro, ou espalhando a noticia do mistério da delicia, ou pedindo meu amor eu gosto tanto da forma como tu gostas mas por favor anda buscar as tuas unhas às minhas costas, e por aí fora. 

Quantos primeiros dias temos? Quantas vezes começa o resto da nossa vida? Quantas vezes olhamos para trás e só assim, à distancia, percebemos que aquele dia foi um desses? Olhando para mim, ali numa sala toda a cair, de carteiras de madeira, daquelas com uma tampa, e banco preso, formando uma peça única, não podia sequer imaginar quantas vezes iria ter primeiros dias, nas décadas seguintes. A pessoa nota que já passou muito tempo e muita vida quando fala assim em décadas. 

Aquela turma foi especial, lembro-me daquela gente até hoje, e, muito de vez em quando, ainda nos encontramos. O 10ºQ, se não me engano. A melhor turma que já tive. A Teresa, a que chamávamos "mãe", por ser mais velha e maternal connosco. O Pedro Costa, portista habilidoso no futebol e maluco por música, que hoje é dos maiores especialista e divulgador de jazz deste país, havia a Cristina Hollywood, chamavamos-lhe assim porque queria ir do Outeiro da Polima para a América e ser estrela de cinema; o Mário Rui, que era a alma da festa ali, o brilhante Marçalo com o seu humor - ainda hoje falamos muitas vezes - e toda uma galeria de personagens, as "católicas" Francisca e Filipa, a bem disposta Catarina, o brilhante Luis Catarino, grande fotografo...e tanta gente que transformou aquela turma em algo especial, sempre a acabar o ano com um arroz à valenciana, numa cave, ali para os lados do shopping das Palmeiras. 

Foi com eles que cantei, pela primeira vez, o Primeiro Dia. 

"E entretanto o tempo fez cinza da brasa e outra maré cheia virá da maré vaza...", como diz a música. Quantos primeiros dias terei ainda? Sem saber que o são, à partida sem fazer ideia? Não faço ideia, lá está, mas sei que, se me avisassem na altura, também não ia acreditar. 

Venham eles. Enquanto forem os primeiros, nenhum deles será o último.

 

 

 

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Eles estão bem.

por PR, em 31.07.16

Mas uma pessoa nunca se habitua. Será que, um dia,quando forem grandes, vão perceber o que é essa falta, esta saudade, quando não estão connosco? De como a noite é tão menor sem a possibilidade de ouvir a sua voz para irem à casa de banho ou a escaparem da cama para, corajosamente, tentarem ganhar uns minutos extra na sala? De como é maravilhoso poder olhá-los antes de ir dormir, e estar ali um bocado. Ver um filho a dormir é a imagem mais concreta de paz de que consigo lembrar-me. Eles estão bem. Nós também, com eles aqui. É a vida.

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Campeões

por PR, em 11.07.16

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Tão bom. Que emoção, que orgulho enorme, alegria do melhor de se ser português, um dia maior, um dia inesquecível. Campeões. Tão bom.

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Agora é a nossa vez

por PR, em 08.07.16

Vamos ser campeões, domingo, em Paris.

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O brutamontes amigo.

por PR, em 28.06.16

Acordei com a notícia da morte do emblemático Bud Spencer. E foi inevitável a viagem a memórias de infância. Das idas ao cinema (Londres, Berna, Condes, Monumental, Roma, Vox...) com a minha mãe a e a minha avó, para ver as aventuras, de argumento primário e sofrível representação, tudo à bulha.

Juntos são Dinamite, Trinitá, a Super Patrulha...filmes emblemáticos, que via deliciado. A noticia de hoje trouxe-me de volta a memórias realmente longínquas. No cinema Vox havia uns rebuçados vendidos numas fitas, com dezenas deles seguidos, de laranja ou limão...adorava.

Bud Spencer foi o nome artístico (homenagem à sua cerveja preferida, a Budweiser, e ao seu actor preferido, Spencer Tracy),  deste italiano nascido em Nápoles, que foi uma espécie de homem do Renascimento: foi nadador olímpico, secretário do consulado no Brasil, letrista, pintor.

Morreu aos 86 anos, em Roma.  

 

PS- Brutamontes não leva hífen, como bem me corrigiu Cláudia Lima, generosa leitora deste tosco estaminé. Obrigado :-)

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Gonças, 13.

por PR, em 24.06.16

Fotocópia. 

Às vezes, muitas vezes, é o que dizem de mim e do Gonçalo. Agora reconheço-me miúdo, no rosto dele, mais do que noutra altura qualquer, sim. A todos os vinte e cinco de Junho, esta emoção. O meu filho faz anos. Sensível, metido no seu mundo mas aberto ao mundo todo, e há tanto mundo naquele olhar, naquele sorriso. Cresce com à vontade com as palavras cantadas, e até nisso somos parecidos. Gosta de ouvir o que dizem nas canções, e decora tudo facilmente. Pai. A bola é tudo para ele, faltar a um treino é o fim do mundo. Cada lance é uma final do Mundial, cada golo falhado um pesadelo que se prolonga, cada golo uma alegria única. Igual a mim, com a idade dele.

Reguila mas transparente na sua reguilice. Sensível nos afectos todos, é um sonhador e tem alma de poeta. O Gonçalo faz anos. Quando ele nasceu...que alegria: um filho rapaz. Pela vida fora, um companheiro único, confidente, espelho e revelação, promessa de um homem como os valores certos, um rapaz extraodinário.

Parabéns, campeão!

 

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Os meus livros. Mesmo meus.

por PR, em 20.06.16

Este fim de semana, a minha mulher esteve a descobrir os meus vários exemplares que escrevi, do mágico Livro em Branco. O primeiro, já de páginas amareladas pelo tempo, começou a ser escrito em 1989. Noutra vida, portanto.

Fiquei feliz que ela tivesse tido a iniciativa de ler aquilo e de partilharmos juntos algumas passagens. E lembro-me que, quando comprei o primeiro, aquilo foi, para mim, uma revelação. A existência de im Livro em Branco, que uma pessoa comprava e depois escrevia o que quisesse, parecia-me a mais prometedora das ideias. Depois veio a net, os blogs e redes sociais, e os livros ali ficaram, com a sua sábia paciência de livros, numa prateleira qualquer. A espreitar das suas lombadas, perenes e constantes na sua promessa.

Ao longo dos anos, fui escrevendo. Desabafos, delírios, poemas, desenhos, letras de canções (passadas à mão, de ouvido, não havia cá internet). A ultima vez que escrevi foi em 2009. E é aí que vou, um dia destes, voltar a pegar naquelas páginas que deixem em branco.

Há tanto para contar de 2009 para cá, que acho que vou passar por cima e retomar com algo novo, como se não tivesse permanecido em branco tanta página por escrever ali, nos últimos 7 anos. Contar tudo o que aconteceu entretanto não faz sentido, aquilo para mim nunca foi um diário, nem nada do género.

Folheando tudo aquilo de novo, mergulho em profundo embaraço, a maior parte das vezes; como acontece de cada vez que o espelho nos devolve uma imagem do que fomos, há tanto tempo. Amores e desamores, duvidas e certezas todas condenadas, vistas daqui...E daí, nem todas.

A verdade é que há ali uma matriz, reconhecível mesmo a todos estes anos de distância. Ontem vi Morgan Freeman num documentário a dizer que, se existir Deus em cada um de nós, ele está no melhor que conseguimos ser, a cada momento, naquilo que é o que somos mais fundo. 

Deus não sei, mas aquilo que está nas páginas daqueles Livros em Branco, é muito do que sou ainda hoje. 

Ingenuidade, idealismo, o ser sempre sonhador, romântico (o amor e o desamor estão ali por todo o lado, em linhas e entrelinhas), e generosidade nos meus gostares.

As pessoas a quem ofereci páginas ali foram todas importantes, e é um aconchego interior notar que muitas delas ainda vivem na minha vida, muito presentes. Outras não, e também está bem assim, que a vida peneira, escolhe, inclui e exclui. É o que é.

Também gosto de perceber que, á luz da minha vida hoje, vou dar muitas páginas a muita gente, faço questão.

A começar pela Rita, que me trouxe pela mão, de volta a estes meus livros, numa viagem emocionante. Haverá estes livros á venda, ainda hoje? Espero que sim, para quando acabar este, ao qual vou agora regressar. 

 

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