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26 anos de Rádio, hoje.

por PR, em 01.02.16

26 anos depois do 1º dia na rádio. Mantém-se a paixão, os sonhos, a procura de novas ideias, aquela energia rara e única que se cria num estúdio, numa emissão em directo.

Vinte e seis, e a contagem continua. Tenho tido muita sorte. Obrigado a todos.

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Um dia para toda a vida.

por PR, em 27.01.16

Passam hoje 71 anos sobre a libertação de Auschwitz. Claro que, naquele dia, muitos prisioneiros não podiam imaginar que, depois daquele inferno, seguir-se-ia outro, às mãos do exército vermelho. Mas, nesta história, a regra é justamente a de passar a assumir como possível o até aí inimaginável.

Nos 3 campos, junto à cidade polaca de Oświęcim, perto de Cracóvia, foram assassinados cerca de um milhão e 300 mil seres humanos. Uma matança animalesca, sádica, doentia, por uso de câmaras de gás, mas também por fuzilamento, ou simplesmente por fome, exaustão, espancamento. 

No fim de semana passado, cumpri o velho sonho de lá ir. O estudo da 2ª Guerra Mundial, uma vida de leituras e documentários, e subitamente ali estava: 12 graus negativos, tudo coberto de neve. As ruínas das Câmaras de Gás destruídas na fuga nazi.  Mas uma, intacta, no campo 1, o da cínica frase no portão de entrada: "o trabalho liberta".

Pisar aquele chão.

Atmosfera pesada, uma energia estranha, um peso silencioso, o tempo todo. Uma certa sombra que se entranha. Custa respirar aquele ar, não sei explicar. E depois, os despojos, que sublinham a ligação física à história macabra que ali teve lugar: roupas, cabelos, utensílios usados pelos prisioneiros e pelos guardas. Auschwitz foi uma máquina de morte, como o foram tantos outros campos de concentração e extermínio, erguidos pelo 3º Reich. Mas aquele foi o maior. Uma das coisas que mais impressiona, chegando lá, é exactamente a dimensão, sobretudo em Birkenau, ali a 3 kms. As crianças, os velhos e toda a gente considerada incapaz para o trabalho era logo eliminada à chegada, levada ao gaseamento apresentado como um higiénico e inocente banho. 

Judeus, mas também opositores polacos, soldados soviéticos, ciganos, homossexuais.

Experiências macabras, mascaradas de científicas. A caça aos gémeos para esse fim. 

A utilização de prisioneiros para retirar os cadáveres das câmaras de gás, e depois pilhar tudo o que fossem objectos de valor das vitimas (de dentes de ouro ao vestuário). Gente que meteu nos fornos crematórios amigos ou familiares. A violência psicológica que deixou marcas para toda a vida, para lá das marcas físicas, em sobreviventes que sabe Deus como conseguiram uma vida normal, depois. Muitos, obviamente, não conseguiram.

Se aconteceu uma vez, pode repetir-se. De lá para cá tivemos e temos outros exemplos de tirania sádica, perseguição e assassinato por razões políticas ou étnicas. Mas a dimensão de Auschwitz continua a ser esmagadora, e ainda bem que esse peso se faz sentir. Porque é imprescindível que a memória não se apague e um crime em cima de um crime seria tentar transformar o que ali se passou em algo mais leve.

Um insulto às vitimas e à parte boa da Humanidade, em que, apesar de tudo, creio.

Ir a Auschwitz foi uma experiência de fortíssimo impacto e inesquecível. Essencial, para mim. 

Toda a gente devia lá ir. Tentar perceber é impossível, porque tudo ali parte de um absurdo criminoso inconcebível. Mas o mínimo que podemos fazer é não apagar este memória colectiva da Humanidade: aquilo aconteceu mesmo. Ao menos que sirva para aprendermos, e estarmos atentos.

Confiscar bens e dinheiro a refugiados de guerra, como está a acontecer na Dinamarca, é deplorável. Mas é mais um motivo para olharmos com responsabilidade e atenção para o que a História tem para nos ensinar. Está ali tudo, é só ver para lá das ruinas, dos turistas, daquele frio na alma, daquela dor.

 

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Bowie.

por PR, em 18.01.16

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Vem aí 2016.

por PR, em 31.12.15

2015 foi um ano cheio. Tão feliz, quase sempre. Por vezes tão duro e sofrido. 2015. Londres, a abrir. Banguecoque e Pukhet a fechar. NY. Gevgeljia. Madrid. A família em primeiro lugar, sempre. E a Rádio a bater recordes. E o maisfutebol melhor que nunca. 2015 foi um ano extraordinário, mas saiu-nos do pelo. É como sabe melhor, não é? O ano em que respondi á pergunta fétiche "o que dizem os teus olhos". Foi especial.  Como ir ao Marquês, outra vez. E ter podido atravessar a Europa para ajufar refugiados, uma pessoa nunca mais se esquece. E 2016?

Vamos a isso. Feliz Ano Novo a todos. Vivam o melhor possível. Não chateiem os outros. Não sejam invejosos. Ajudem alguém. Generosidade sim, mesquinhez não. Surpresas, só das boas. Brinquem com os vossos filhos. Aperfeiçoem o vosso conceito de não fazer nada. Mas ponham brio em tudo o que fazem. Conheçam-se melhor. Não se fechem na net. Zelem pelas amizades e pelo Planeta. Desprezem o preconceito. Respeitem a vida. Saúde!

O melhor está sempre para vir.

 

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Dos 24 de Dezembro.

por PR, em 24.12.15

O que eu lembro melhor é que, no Natal, éramos muitos. Os meus pais, a minha irmã,a minha avó, os meus tios e primos. os tios e primos deles. Uma casa pequena, que depois ganhou um sótão e uma escada de caracol. Havia presentes a encher o pequeno corredor até à cozinha, e esse corredor, que hoje demoraria dois ou três passos a percorrer, parecia-me enorme. Tenho aquela imagem viva na memória, aquela luz do monte de embrulhos de papel colorido, revelados aos nossos olhos, depois do meu tio bater na porta da sala á meia noite. Era o Pai Natal. O nosso Pai natal da infância é o meu Tio Artur, que amanhã receberei em minha casa, tantos anos depois, tão bom. O que eu lembro é o jogo do Futegolo, sucedâneo tuga do Subbuteo. Lembro-me de uma bola de futebol, que depois levei para a escola, tão contente. Lembro-me dos LP´s que depois ouvia sem parar, nos dias seguintes, a aprender as letras todas. Depois houve um ano em que não fomos porque se decretou que não havia Natal. passei a noite de 24 na sala, no escuro, phones nos ouvidos, com o "Alchemy" dos Dire Straits de uma ponta à outra. Depois houve um ano em que o meu Pai ficou em casa. Depois já eu e os meus primos tínhamos as nossas casas e a vida levou-nos para Natais diferentes, outros montes de presentes, outros cenários e latitudes.

O que eu me lembro também é da árvore de Natal ser um pinheiro natural, havia aos montes à venda nas ruas. Ainda bem que isso mudou, que estupidez abater árvores assim todos os anos, que em Janeiro enchiam os contentores. Lembro-me do cheiro da caruma na sala. Do encantamento das luzinhas, reflectindo nas cores das bolas de plástico. Lembro-me de um Natal no Algueirão. Outro ali ao pé da Avenida do Brasil, noutros tios e primos, longínquos até hoje. Uns embrulhos numa chaminé, um pijama encarnado às riscas.

Lembro-me do Pai Natal nas ruas, ali no Rossio e nos Restauradores, e de eu ter medo dele. Há uma fotografia a preto e branco que comprova esse irracional e infantil receio. 

O Natal de quando eu era a criança que os meus filhos são hoje. E a certeza de que o deles é melhor que os meus em muita coisa, mas talvez lhe falte a inocência de nos encantarmos muito mais com muito menos.

Feliz Natal a todos, mesmo os que vão passar a consoada a ouvir música, sozinhos algures. Há sempre mais e melhores natais à vossa frente. Acreditem, já lá estive. 

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Dos Sinais ali tão perto.

por PR, em 20.12.15

Foi um dia difícil e sofrido, por motivos vários. Mas ter ido, naquela noite, à Sala Estúdio do Teatro D. Maria II, acabou por ser um bálsamo. Com Filipe Melo ao piano, a voz de Fernando Alves, e as suas palavras, lidas como só ele poderia ler. As respirações, o intimismo da iluminação e da música, as pausas e os olhares por cima dos óculos. Os fugazes sorrisos, aqui e ali. Uma certa fragilidade de quem, ali no palco, está tão longe do conforto do estúdio. Os auscultadores nos ouvidos ajudaram a atenuar essa estranheza de território, creio.
Fernando Alves e os Sinais que ele dá na TSF todos os dias. 
A Rádio ali, de outra maneira. A mesma força das palavras, aquela forma poética de contar os dias para lá da sua espuma. Tive vontade de ir lá dar-lhe um abraço e agradecer.
O deslumbre, da minha parte, fazedor de rádio, mas desde sempre, ouvinte. 
Um privilégio inesquecível ter podido ver, e, às vezes, fechar os olhos e só ouvir. 

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Uma gota no Oceano. Mas ir.

por PR, em 04.11.15

Quero falar-lhes de Kemal.

 

" i am just simple bosnian man my brother who want to others that what i want for myself"

 

Há ali um país, que é uma bomba relógio de tensões étnicas, e que um dia explodirá. Chama-se Macedónia, e a capital. Skopjie, está dividida entre uma parte mais moderna, macedónia, e uma mais desordenada e menos geométrica, de vielas e mesquitas, a parte albanesa. Ali a uns duzentos quilómetros, em direcção à Grécia, há uma deslumbrante estrada de montanha, com um rio em baixo, coisa de postal. Vai dar à cidade de Gevgelija, onde está instalado um campo de refugiados, gerido pela ACNUR, pela Cruz Vermelha, e por um exercito de boa vontade formado por voluntários que decidiram estender a mão aos grupos, cada vez maiores, de pessoas que vinham a pé, da Grécia e do Inferno de países em guerra, países de pobreza extrema, estado islâmico assassino à solta, cidades arrasadas, toda a esperança negada. Esta cidade, em tempos chamada Las Vegas dos Balcãs, por ter tantos casinos, tem um Campo onde ninguém dorme. Está 24 horas seguidas a receber refugiados e a indicar-lhes o caminho para o comboio, os autocarros ou os táxis, que depois os levam mais para Norte, para o próximo campo, já na Sérvia. E daí hão de avançar sempre mais para Norte: Croácia, Áustria, Alemanha. Talvez Noruega ou Suécia. O sonho de paz segue o sentido da bússola: é algures a Norte. 

No dia que lá passámos, no campo de Gevgelija, a ajudar como pudemos e soubemos, entraram neste campo mais de 10 mil refugiados. Da Síria, mas também da Somália, Eritreia, Sudão do sul. E também Egipto. Sim. E Bangladesh, Paquistão, Irão e Afeganistão. Há de tudo. Um professor catedrático de História e História da Arte, que dava aulas numa universidade em Damasco e agora está ali, com a mulher e os dois filhos. A explicar que não entende como a Hungria fechou as fronteiras, se, de 1946 em diante assistiu a uma fuga em massa de refugiados que fugiam do controlo soviético e procuravam abrigo e futuro no ocidente europeu. "They must have forgotten", dizia ele, enquanto recebia a sandes, o sumo, as passas e, à entrada do campo, apresentava a mulher e os dois filhos. "If not Hungary, maybe Germany".

Um outro casal sírio perguntava-me, enquanto recebia a comida que nós tínhamos ali para lhes dar, acompanhada de um "welcome": de onde eu era. Portugal, respondi.

De trás dos pais, descobre-se um miúdo, 8/10 anos que exclama, sorrindo "Portugal? Me too!", e aponta para a t-shirt onde está a foto e o nome de Cristiano Ronaldo.

Uma outra criança, esta de dois anos, com o pé ferido, chora, enquanto a minha mulher lhe limpa esse pé. Depois calçamos-lhe umas meias e uns ténis. E ilumina-se aquele rosto, um olhar de súbito conforto e o aconchego de uns pezinhos enfim quentes.

Uma mulher da Somália, com dois filhos pequenos, explica que perdeu  marido, pais e sogros na travessia do mar que desaguou neste caminho das pedras, literalmente. E pergunta, na ingenuidade que diz muito sobre muitas destas pessoas e as expectativas que têm. "Germany, one day walk?

Não, minha senhora, ainda tem muito caminho de pedras para andar.

Fomos à Macedónia com a ideia de ajudar a descarregar as mais de 30 toneladas de ajuda que milhares de portugueses reuniram, para minorar o sofrimento destes refugiados em fuga. A associação "It's Our problem" e "A Solidariedade não conhece Fronteiras" lançaram esta iniciativa, as companhias de transportes TorresTir e Garland ofereceram os camiões e os serviços dos motoristas. A burocracia e a falta de um papel (parece um skecth, mas não) mantiveram os camiões, motoristas e carga humanitária retidos na alfandega da Macedónia primeiro e depois na da Sérvia. Dias de angustia, frustração e a constatação que estes países estão prisioneiros de uma lógica de exercício do pequeno poder, corrupção latente, uma cortina de ferro que vive dentro das cabeças de funcionários mal pagos e sem mundo nem vontade de facilitar um milímetro. 

A ajuda do ACNUR em português foi decisiva e a Carga humanitária foi enfim entregue a quem precisa, já na Croácia. Os milhares de portugueses que deram roupa, brinquedos e comida podem ficar descansados: a ajuda chegou. E, daquilo que vi, pode mesmo fazer a diferença. 

Mas gostava que conhecessem Kemal. 

"Leave emotions out of the camp", recomendava ele, de olhos cheios de lágrimas, perante uma mulher em pânico porque de repente não sabe da família, naquela confusão de gente e tendas com letras que ela não conhece, numa língua que não é a sua, num chão que lhe é tão estranho como seria Marte. 

Kemal é um bósnio que é o mais próximo que conheço de santidade em forma humana. Altruísmo, desapego a valores materiais, entrega total à causa da ajuda ao próximo. E gentileza em todos os momentos. Um exemplo que me ficará, para a vida. Um dia quero mostrar-lhe a minha terra, os nossos filhos, e explicar-lhes que foi este senhor de barba rala e olhos profundos que ficou com as mochilas da Maria, do Francisco e do Miguel cheias de brinquedos que foram deles e agora estão mãos de outras crianças, para quem um Capitão Gancho, um Dinossauro, um Homem Aranha são um tesouro e uma espécie de portal da imaginação de novo aberta para a infância, que está a acontecer e tem de acontecer, mesmo no meio deste pesadelo. 

Ter ido com a minha mulher, num labour of love, até este campo de refugiados. (Obrigado, Rita, por seres a minha Angelina Jolie. Gosto de pensar que isso faz de mim um bocadinho Brad Pitt. :-))

A sério, ter lá estado. E trabalhado para minorar o sofrimento daquela gente. Ter conhecido o Kemal, mas também a Mariana, a Cláudia, a Sandra e a Ana. O nosso improvisado guia que nos mostrou a cidade velha e nos deixou numa casa de chá turco, e nos ofereceu umas uvas sem graínha, enquanto ia fazer a sua reza do meio dia à mesquita. O Mohamed que tem uma loja e gasta boa parte do lucro a ajudar refugiados. 

Ter ido foi ter encarado de frente a diferença, e ter confirmado, uma vez mais, que mesmo nas mais extremas diferenças, somos mais parecidos do que pode parecer. Just people, não é?

Não sei como vai a Europa lidar com o que está a acontecer. Mas sei que ter o gesto de ajudar o próximo é um legado que se deixa. Todo o tempo da viagem pensei muito no Gonçalo, na Maria e na Mafaldinha. Da sorte que todos temos por nos termos a todos. Por termos nascido aqui e vivermos neste país. 

Esta viagem e esta experiência ficam para sempre, na pele e na memória. Como as experiencias da vida que marcam a fronteira entre um antes e um depois. 

Que tenha servido para ajudar, mesmo sendo uma gota no oceano como sabemos que foi.

Oxalá. in sha Allah, como diria Kemal.

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It's our problem, uma escolha.

por PR, em 29.10.15

USF15_RefugeeLP3_optimized.jpgHoje é o dia em que eu e a minha mulher avançamos para uma Missão Humanitária de ajuda aos refugiados que estão em Gevgelija, na Macedónia.

Somos parte de uma iniciativa lançada pela gente extraordinária da It's Our Problem e ajudar a descarregar 2 camiões, disponibilizados a custo zero pela Garland e a Torrestir.

Lá dentro estão roupas, brinquedos e outras formas de ajuda, dirigida, sobretudo, a crianças como esta, na imagem. Esta imagem foi tirada no Campo de Refugiados para onde vamos, e onde estão milhares de famílias. Famílias como as nossas, mas exaustas, depois de milhares de quilómetros de fuga à guerra, à fome, ao medo.

Só querem um sítio para começar do zero, em família e em paz.

À medida que o rigoroso inverno dos Balcãs se aproxima, todas as roupas, as mantas, as botas, os pijamas quentes, os gorros, as luvas e outras roupas que lhes vão chegar, vindas de Portugal, vão, com certeza, fazer toda a diferença. Seremos os embaixadores dos milhares de portugueses que decidiram não se esconder, não ignorar, e ter um gesto de humanidade.

Obrigado a todos.

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Bom proveito.

por PR, em 28.10.15

 

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Como em tudo na vida, há que conservar o humor. 

E juntar um copo de tinto e um queijinho. 

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Sinal vermelho.

por PR, em 27.10.15

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No seu relatório sobre cancro, a Organização Mundial de Saúde decide não ficar por meias palavras e declara formalmente que salsichas, bacon e enchidos são cancerígenos. E acrescenta um "provavelmente, a carne vermelha também".

Este "provavelmente" levanta, a meu ver, dúvidas sobre o rigor da conclusão do estudo, ou se ainda há investigação por concluir. Mas uma coisa é certa: aquilo que nos é dito já, como certo e comprovado, mexe com aquilo que sabemos dos nossos hábitos alimentares de toda a vida. É assustador.

Esta declaração da OMS vai ao osso, explicando que a carne vermelha, onde a Agência Internacional de Investigação do Cancro inclui a carne de vaca, de borrego ou de porco, foi classificada como sendo “provavelmente cancerígena nos humanos”. Entra para uma lista onde estão, por exemplo, o glifosato, uma substância contida em muitos herbicidas. Cancros mais comuns relacionados com o consumo de carne vermelha: colo-rectal, pâncreas e próstata.

A autentica roleta russa do cancro em que se transformou a nossa existência, em que parece que estamos todos razoavelmente comprometidos com o "bichinho", mais tarde ou mais cedo, ganha assim, formalmente, uma explicação simples e razoavelmente clara: é do que comemos, sobretudo.

Esta declaração tem efeitos em toda uma economia de produção, da criação dos animais ao processamento da sua carne. Tem implicações devastadoras na vida de pequenos e grandes produtores, de trabalhadores em fábricas e empresas relacionadas com este ramo de actividade. Mas acho que a notícia é muito mais do que uma notícia sobre este ou aquele sector de produção. Tem a ver com toda a gente, e a discussão deve ser tida nesse universo muito mais abrangente: isto diz respeito a todos. Porque estamos todos a bordo deste carrossel. 

Nos últimos anos, dei comigo a comer cada vez menos carne e cada vez mais peixe e legumes. Mas foi uma vida inteira a consumir e, por Deus, a gostar muito de carne. Se eu não for a tempo, até porque são 44 anos disto, que seja possível levar os nossos filhos por um caminho alimentar diferente. 

Este relatório é assustador porque entra para o registo da urgência de uma mudança de mentalidade geral, e todos sabemos como isso é tão incrivelmente difícil. Ou seja, a roleta russa continuará, e vai levar algumas gerações até que a Alimentação ganhe toda uma nova lógica e o consumo de carne, tal como a conhecemos desde sempre, passe a ser coisa do passado. 

 

 

 

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